sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Todos os Santos

O que faz um santo ser santo?

Possivelmente seja essa a grande pergunta para a qual todos queremos uma resposta, quando celebramos o dia de Todos os Santos. E, se celebramos “Todos os Santos”, também nos perguntamos por que alguns são santos e outros não? O que diferencia um santo das demais pessoas? O Santo passa a ser santo quando a Igreja assim o denomina ou é santo durante sua vida terrena?

Podemos iniciar compreendendo o significado da palavra “santo”. Além de significar “algo sagrado”, a palavra “santo” tem a conotação de algo ou alguém escolhido por Deus. Como se pode ver na primeira carta de São Pedro aos “eleitos conforme a presciência de Deus Pai e pela santificação do Espírito, para obedecerem a Jesus Cristo” (1 Pd 1,1). Esses “eleitos” sãos os escolhidos por Deus para formar uma “nação santa”, cono diz o apóstolo: “Vós sois a gente escolhida, o sacerdócio régio, a nação santa, o povo que ele adquiriu, a fim de que proclameis os grandes feitos daquele que vos chamou das trevas para sua luz maravilhosa.” (1 Pd 2,9).

Mas a santidade não é via de mão única. Não basta a escolha divina. Tem que ter uma resposta humana. Essa é a orientação que podemos ler na primeira carta de Pedro: “Como filhos obedientes, não moldeis a vossa vida de acordo com as paixões de antigamente, do tempo de vossa ignorância. Antes, como é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos, também vós, em todo vosso proceder.” (1 Pd 1,14-15). A santidade, portanto, tem a ver com as posturas, com os comportamentos do dia a dia.

Há, portanto, um chamado divino, uma escolha divina e ao ser humano, cabe dar uma resposta. Uma resposta que se expressa na manutenção de uma vida exemplar; cabe viver num processo de purificação e “praticar um amor fraterno sem fingimento. Amai-vos, pois, uns aos outros, de coração e com ardor”(1 Pd 1,22), orienta Pedro. Sem atos de amor ao outro, não há santidade.

A proposta à santidade é de origem divina, mas a resposta é postura humana, como ensina João, em sua primeira carta (1 Jo. 3,1-3). É necessária, da parte humana, aderir àquele que deu seu sangue purificador: “Todo o que espera nele, purifica-se a si mesmo, como também ele é puro.” (1 Jo 3,3).

A afirmação da importância da adesão, da fé, da esperança, da confiança em Jesus Cristo, pode ser lida em outro escrito joanino. No livro do Apocalipse (7, 2-4.9-14). Os eleitos e que aderiram ao chamado, formam “uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar. Estavam de pé diante do trono e do Cordeiro; trajavam vestes brancas e traziam palmas na mão” (Ap 7,9).

E João explica o porquê dessa multidão trajar vestes brancas: isso ocorre porque eles enfrentaram e superara a “grande tribulação”. A fé, sendo expressa em atos, tem consequências. Essas consequências manifestam-se nas tribulações da vida cotidiana. Por isso, João afirma que, ao enfrentarem, ao passarem e ao superarem, as tribulações, aqueles que formam essa multidão “lavaram e alvejaram as suas roupas no sangue do Cordeiro". (Ap 7,14).

E quem faz parte dessa multidão? Quem nos dá essa resposta é Mateus (Mt 5,1-12a), dizendo que a multidão de eleitos é formada pelos “bem aventurados”: os pobres, os aflitos, os mansos, os que desejam justiça, os misericordiosos, os de coração puro, os promotores da paz, aqueles que são perseguidos por serem justos, aqueles que são injuriados e perseguidos por causa de sua prática cristã. Todos esses são bem aventurados, são os santos, são os eleitos… são os que deram uma resposta ao chamado de Deus. Podemos até dizer mais. Os santos não são aqueles que passam a vida rezando, mas os que fazem de sua vida uma oração.

É claro que a Igreja, só para nos evidenciar alguns modelos de virtude, escolhe entre seus santos do cotidiano, alguns para nos servirem como modelos. Entretanto, a celebração de todos os santos não se destina à exaltação daqueles que já mereceram destaque.

No dia de todos os santos a Igreja nos convida a prestar homenagem a esses que fazem de sua vida um cotidiano de resposta ao apelo divino.

Neri de Paula Carneiro

sábado, 24 de outubro de 2020

Não maltrates

Quem lê a bíblia pode perceber as maravilhas que Deus faz em favor de seu povo. O livro do Êxodo é um exemplo disso. E hoje, neste trigésimo domingo do tempo comum, ao lermos Ex 22,20-26, podemos superar qualquer dúvida: O senhor, definitivamente, toma o partido de seu povo. Mas, em meio ao povo, faz escolhas e opções de classe: opta pelo estrangeiro (Ex 22,20), pelo órfão e sua mãe viúva (Ex 22,21) mas, principalmente, faz uma opção pelo pobre (20,24).

É maravilhosa a forma como Deus defende o indefeso; como se coloca ao lado daquele que não tem companhia; como faz questão de ameaçar aqueles que ameaçam aos fracos. Mostra que sabe usar sua mão poderosa e a força de sua ira: “minha ira se inflamará” (Ex 22,23) contra aquele que causa a dor do indefeso, diz o Senhor. Mas, por outro lado, mostra sua compaixão, mostra sua face amorosa quando defende o fraco que clama por justiça e diz que “eu o ouvirei, porque sou misericordioso.” (Ex 22, 26).

Então, se você ouvir por aí, ou ler em algum lugar, alguém dizendo que não se pode misturar a prática religiosa com questões sociais, com política… pode crer que esse faz parte do time do anticristo. Pois Deus não é apartidário. Pelo contrário, Ele toma partido contra os poderosos opressores e defende as vítimas do sistema sócio-econômico ou da ambição dos usurários e banqueiros. “Se emprestares dinheiro a alguém do meu povo, a um pobre que vive ao teu lado, não agirás como um agiota.” (Ex 22, 24).

Essa postura do Deus do antigo testamento, defendendo o fraco, repercute na postura de Paulo, hoje na carta aos tessalonicenses (1Ts 1,5c-10). Aparece justamente quando o apóstolo elogia, não eventuais orações vazias, mas atitudes de solidariedade. Paulo elegia os tessalonicenses porque depois de terem ouvido a Boa Nova, anunciada pelo apóstolo, eles tornaram-se “um modelo para todos os fiéis” (1Ts1,7). O exemplo dessa comunidade foi tão convincente que passou a ser mais eficiente que a própria pregação (1 Ts 1,8), “pois todos contam como fomos recebidos por vós” (1Ts 1,9). Sua solidariedade perdurou por séculos, tanto que nos dias atuais somos convidados a olhar nossas atitudes tendo como parâmetro o que fizeram os tessalonicenses.

E se tudo isso ainda não for suficiente para demonstrar a necessidade da prática da fé, Mateus (22,34-40), mostra como Jesus subverte os valores antiquados e resume todos os mandamentos e ensinamentos dos profetas (Mt 22,40. E acaba mostrando que todos os mandamentos se resumem em dois, que na prática são um só: trata-se do mandamento do AMOR. Um amor que, ao mesmo tempo, está voltado para Deus, sem deixar de estar voltado para o outro. Amar a Deus e amar ao próximo: essa é a lei!

E Jesus é bem específico, ao dizer que “toda a lei e os profetas DEPENDEM desses dois mandamentos”. Ou seja, não adianta nenhuma outra atitude, dita cristã, se essa outra atitude não for pautada pelo mandamento do amor.

A questão, agora, é saber o porquê dessa opção em favor do amor para com o outro; o porquê da defesa do pobre, do fraco, do injustiçado.

A resposta ou o porquê disso é porque aqueles que estão em situação de vulnerabilidade não têm ninguém em sua defesa. E estão nessa situação, justamente, por estarem abandonados.

É a existência de pessoas não amadas, sofrendo, sendo vítimas de todo tipo de espertalhão é que o Livro Sagrado fala em sua defesa. E a lei, ou a nova lei, vale enquanto persistirem as situações contra as quais ela foi criada. Enquanto existirem pessoas sendo enganadas, ludibriadas, extorquidas, roubadas em seus direitos… vale advertência do livro do Êxodo: quando o pobre gritar em seu sofrimentos “eu ouvirei seu clamor. Minha ira se inflamará, e eu vos matarei à espada” (Ex 22,22-23).

E você: não quer ser destinatário da ira do Senhor? Então não maltrates aqueles que convivem com você. Mas não seja bonzinho apenas por medo da Ira do Senhor. Seja justo e honesto em todas as suas atitudes porque essa é a coisa certa a ser feita.

E se alguém ainda te disser que não deve misturar coisas da religião com a busca pela justiça social, então essa pessoa não deve ser levada a sério, pois: ou não entende nada do que o Senhor fala pela bíblia, ou faz parte do time do anticristo. Quanto a nós que abraçamos aquilo que o Senhor nos ensina, sigamos sua orientação: “não maltrates!”

Neri de Paula Carneiro

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Para que todos saibam

Quais os planos de Deus? Quem é escolhido por Deus? O que deve ser ofertado a Deus?

Estas são algumas indagações que podemos nos fazer, diante das leituras que a Igreja nos apresenta neste vigésimo nono domingo do tempo comum.

A primeira indagação tem a ver com a primeira leitura, retirada do profeta Isaías (Is 45,1.4-6). Nestes poucos versículos o profeta mostra como Ciro, rei persa, portanto um estrangeiro, é visto e indicado como emissário de Deus. O contexto é o final do período exílico, quando Ciro vence os babilônios e o profeta vê nisso um indício de que o fim do cativeiro está próximo, pois o jovem rei está vencendo seus inimigos. E, do ponto de vista político, trata-se de uma leitura simples: derrotando os adversários, Ciro pode ser visto como aliado do povo hebreu, que fora exilado quando Nabucodonosor dominou Jerusalém.

Os dados históricos são fáceis de entender. A grande questão é saber qual o propósito de Deus em permitir que seu povo seja dominado e exilado. A resposta histórica: porque o império babilônico está em expansão e os descendentes de abraão estão em decadência moral e política. Mas do ponto de vista religioso, pode-se dizer que o cativeiro ocorreu porque os dirigentes do povo se corromperam, aderiram a outros deuses e aceitaram os valores das nações dominantes. Ou seja, a corrupção da classe dirigente respingou malefícios sobre o povo.

Como o Senhor não abandona os seus, Isaías vê em Ciro o enviado de Deus, para purificar o povo, depois de “dobrar o orgulho dos reis” (Is 45,1). O rei persa é escolhido pelo nome, “por causa de meu servo Jacó, e de meu eleito Israel” (Is 45,4), diz o Senhor que se apresenta como único Deus (Is 45,5-6).

Qual o plano de Deus? Apresentar-se: “Eu sou o Senhor, não há outro”!

Paulo (1 Ts 1,1-5) vai acrescentar um ingrediente novo: vai mostrar que esse único Deus é, também, trino. E por ser trino, uma comunidade, mobiliza a comunidade para a união e a oração, como a comunidade de Tessalônica, “reunida em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo” (1 Ts 1,1), mediante a força do Espírito Santo (1Ts 1,5). É a ação da trindade.

Com isso, Paulo mostra que, não só o estrangeiro Ciro é escolhido pelo Senhor, mas o próprio Senhor se manifesta aos estrangeiros, pois a comunidade cristã à qual o apóstolo dirige esta carta é uma comunidade sediada numa cidade grega. Ou seja, a Igreja que nasceu do sangue derramado do cordeiro, nasce com vocação para ir além das fronteiras. É uma igreja missionária.

Sendo uma comunidade missionária, o que a Igreja pode entregar a Deus?

Evidentemente não vai ser a atitude vil dos representantes do povo, como mostra Mateus (Mt 22,15-21). Aqueles que se fazem representantes do povo traçam planos para enganar e tirar proveito próprio. Mesmo sendo de grupos adversário como os fariseus e os herodianos (Mt 22, 15-16) são capazes de se unir para praticar maldades. O mesmo que fazem atualmente os partidos adversários que se unem com o objetivo de alcançar o poder… e os benefícios que ele confere.

Esse exemplo nefasto se perpetuou e muitos daqueles que, atualmente, são ou pretendem ser representantes do povo manobram para enganar à população. Da mesma forma que tentaram enganar a Jesus. Aqueles foram desmascarados pelo Mestre. Cabe a nós, nos dias atuais, não nos deixarmos levar na onda dos espertalhões. Desmascarar aqueles que nada plantam junto ao povo, mas em tempos eleitoreiros querem colher votos dos desavisados.

É claro que o imposto devido, se justo e retornável em forma de benefícios sociais, devem ser pagos. Por isso, Jesus admite que se deve dar “a César o que é de César”. Isso porque o cristão não está aqui para desestabilizar o sistema. Mas, por outro lado, o cristão é aquele que dá “a Deus o que é de Deus.” (Mt 22,21)

Em que consiste isso?

Consiste em manter uma atitude, ao mesmo tempo orante e atuante na sociedade. Deus não perde nem lhe é acrescentado nada, se apenas nos prostrarmos em recitações do orações ou estardalhosa profusão de preces. Ao Senhor importa a atitude e a postura diante e ao longo da vida.

Ciro, o persa, deu a liberdade ao cativos. A comunidade de Tessalônica deu, segundo escreve Paulo, “a atuação da vossa fé, o esforço da vossa caridade e a firmeza da vossa esperança” (1 Ts, 1,3). A postura de Ciro e a dos tessalonicenses foi semelhante: fizeram algo pelo outro. A fé, a caridade e a esperança dos tessalonicenses tinham o objetivo de ajudar.

O que se deve ofertar a Deus, portanto, muito mais do a orações vazias de ação, são as ações em forma de oração, para que todos saibam que o quê nos move não é só a fé. Somos movidos, também pela esperança… e principalmente pela caridade comprometida.

Neri de Paula Carneiro

domingo, 11 de outubro de 2020

Nossa Senhora Aparecida

Além de ser dia das crianças, no dia 12 de outubro também se comemora o dia de Nossa Senhora Aparecida.

Quando se fala isso, não são poucas as pessoas que argumentam: “Não entendo: Tem Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora de Lourdes, Nossa Senhora do Carmo, Nossa Senhora de Guadalupe… e Nossa Senhora Aparecida, além de outras. Afinal de contas, quantas Nossas Senhoras existem?”

A resposta, com sabemos é esta: só existe uma, que é Maria de Nazaré, a mãe de Jesus. Essa é a Nossa Senhora. E é Nossa Senhora por ser a mãe de Nosso Senhor, como nos diz a canção do Padre Zezinho:

“O povo te chama de Nossa Senhora

por causa de Nosso Senhor

O povo te chama de Mãe e Rainha

Porquê Jesus Cristo é o Rei do céu

E por não te ver como desejaria

Te vê com os olhos da fé

Por isso ele coroa a tua imagem Maria

Por seres a mãe de Jesus

Por seres a mãe de Jesus de Nazaré

Como é bonita uma religião

Que se lembra da mãe de Jesus

Mais bonito é saber quem tu és

Não és deusa, não és mais que Deus

Mas depois de Jesus, o Senhor

Neste mundo ninguém foi maior”

Como podemos ver, a canção nos explica o porquê da devoção a Nossa Senhora: por ser a mãe do Nosso Senhor; é rainha porque Jesus é o Rei dos céus; não é deusa, nem maior do que Deus. Mas neste mundo ninguém foi maior, pois só ela teve a graça de nos dar Jesus de presente.

Mas, antes de entendermos as “tantas nossas senhoras”, vamos entender porque fazemos preces a Maria, mãe de Jesus. É a mesma canção do pe Zezinho que explica:

“Aquele que lê a palavra Divina

Por causa de Nosso Senhor

Já sabe que o livro de Deus nos ensina

Que só Jesus Cristo é o intercessor

Porém se podemos orar pelos outros

A Mãe de Jesus pode mais

Por isto te pedimos em prece oh! Maria

Que leves o povo a Jesus

Porque de levar a Jesus entendes mais”

Só Jesus leva ao Pai, mas Maria leva a Jesus. Levou, ou seja, carregou Jesus em seu ventre, por isso pode nos levar, ou seja, conduzir a Jesus, e Ele nos leva ao Pai. Aliás esse é sentido do texto do Evangelho (Jo 2, 1-11) que a Igreja nos convida a refletir no dia de Nossa Senhora: Maria viu que havia um problema: o vinho estava acabando. Não teve dúvidas, foi até Jesus como a mãe que vai ao filho: “Eles não têm mais vinho” (Jo 2,3).

Podemos até pensar que Jesus foi grosseiro com sua mãe. Mas Ele somente argumentou: “O que você está me pedindo, mãe? Minha hora ainda não chegou. Mas pode deixar que dou um jeito” (Jo 2,4). E ela, com a certeza de que um filho não se nega a atender à mãe, dirigiu-se aos garçons: “Confiem no meu filho. Ele vai tirar vocês do apuro. Vai salvar a festa e o casamento. Façam o que ele disser” (Jo 2,5).

A postura de Maria, na festa de Caná, foi semelhante à atitude da rainha Ester (5,1b-2; 7,2b-3): ambas são intercessoras em favor do povo. Maria intercede em favor da felicidade do casal, pois a família é importante. Tão importante que começa numa festa. E Maria intercede para que a festa continue e a família possa iniciar sem contratempos. Da mesma forma Ester, intercede pela vida de seu povo: "Se ganhei as tuas boas graças, ó rei, e se for de teu agrado, concede-me a vida - eis o meu pedido! - e a vida do meu povo - eis o meu desejo!(Es 7,3).

E assim chegamos aos títulos de Nossa Senhora. A mesma e única Maria de Nazaré, cultuada, venerada, admirada, amada de várias formas. Por ensinar a rezar: Nossa Senhora do Rosário; Por ser luz no caminho das pessoas: Nossa Senhora das Candeias. Por ter se manifestado nas localidades de Fátima, Lourdes: Nossa Senhora de Fátima e Nossa Senhora de Lourdes. Por ser protetora e defensora dos índios: Nossa Senhora de Guadalupe, manifestando-se na cidade de Guadalupe, no México. E Nossa Senhora Aparecida, a protetora da nação brasileira, que escolheu se manifestar entre os pobres, pescadores, escravos… vítimas dos exploradores do povo. Essa é a Nossa Senhora Aparecida, pois apareceu em favor dos que dela precisavam.

Nos dias que estamos vivendo, com tanto sofrimento no meio do povo, podemos nos apegar com Maria, a Nossa Senhora e, talvez, devamos confiar mais nela. Talvez devamos nos dirigir a Maria, não como quem vai ao mercado, mas como o filho que confia na mãe. Talvez devamos confiar na mãe de Jesus como confiaram os garçons e os pescadores do rio Paraíba do Sul.

E vamos pensar juntos: se podemos manter uma boa relação com Maria, seguramente teremos boa amizade com seu filho; uma relação de amizade, a partir da qual podemos até dizer que somos da família do Pai, do Filho e do Santo Espírito, pois a mão já nos adotou.

E se ainda temos alguma dúvida, vamos cantar com os versos do pe Zezinho:

“Quero lembrar os fatos que aconteceram naquele dia

Quando por entre as redes, aquela imagem aparecia

Vendo surgir das águas a tosca imagem de negra cor

Agradeceram todos à mãe de Cristo por tanto amor!




Quero entender o culto que começou, desde aquele dia

Muitos não compreendem, dizendo ser uma idolatria

Mas neste simbolismo daquela imagem, de negra cor

Chega-se com Maria ao santuário do salvador!




Torno a lembrar os fatos que agora tocam a tanta gente

Esta senhora humilde, de cor morena, se fez presente

Numa nação, aonde imperava a mancha da escravidão

Nossa senhora escura nos diz que o Cristo nos quer irmãos”

Com a ajuda da mãe, talvez sejamos capazes de ajudar no processo de libertação contra os opressores do povo. Pois é em favor do povo é que “a mãe de Jesus está presente” (Jo 2,1).




Neri de Paula Carneiro

Mestre em educação, filósofo, teólogo, historiador

Rolim de Moura - RO

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Para todos os povos

Quem deve ser convidado para uma festa de casamento?

Essa parece ser a pergunta central, colocada pelo Evangelho segundo Mateus (22,1-14), na liturgia deste vigésimo oitavo domingo do tempo comum.

Estamos numa situação festiva. O rei esta preparando a festa para o casamento de seu filho (Mt 22,2). Emitiu os convites (Mt 22,3). Mas os destinatários recusaram ou desdenharam do convite e foram se dedicar a outros afazeres (Mt 22,4-6).

Entretanto o casamento e a festa não poderiam deixar de acontecer apenas porque os principais convidados não compareceram; ou não foram “dignos” de estar presente (Mt 22,8). Então o rei, abre as portas e convida outras pessoas (Mt 22,9-10) e a festa acontece.

E não é qualquer festa. Trata-se de uma festa de casamento. E nisso estão presentes dois elementos importantes: primeiro a alegria de conviver e comemorar, ou seja o fato de estar juntos na alegria pode ser visto como um sinal do paraíso, que é a felicidade plena. A comemoração tem relação com a saciedade e a convivência diz respeito à vida em comum; em segundo lugar, o fato do casamento. Não se trata apenas da alegria da vida em comum ou de estar juntos. O casamento diz respeito à corresponsabilidade do ser humano no projeto da criação. Casamento não é só um homem e uma mulher se entregando por amor, mas é Deus compartilhando com as pessoas a responsabilidade pela continuação da vida. O casamento, portanto é uma extensão da obra criadora de Deus, sendo prosseguida pela complementariedade das pessoas que se entregam. A festa, portanto, é um sinal do amor de Deus manifestando-se entre as pessoas.

Por causa dessa vida em comum que é um prenúncio do paraíso e da complementariedade da obra da criação, presente no casamento foi que o rei, da parábola, fez questão de que sua sala de festas estivesse repleta de convidados. Por isso, a insistência para que seus servidores saíssem às ruas convidando a todos para se fazerem presentes.

Esse convite nos é feito pelo próprio Deus, como o demonstra Isaías (25, 6-10a). É o convite para o paraíso. Para um encontro definitivo, com o Senhor, ocasião em que ele “eliminará para sempre a morte e enxugará as lágrimas de todas as faces” (Is 25,8). Trata-se de um convite “para todos os povos” participarem de “um banquete de ricas iguarias”. Nessa festa não haverá sofrimento, pelo contrário, haverá “um banquete de ricas iguarias, regado com vinho puro” (Is 25,6).

O critério, ou a porta de entrada, para a participação nessa festa é a solidariedade. O ingresso para a festa definitiva é a atenção à necessidade do outro. É o que sugere Paulo (Fl 4,12-14.19-20). Ele, ao suportar as dificuldades, ensina como sobreviver pois a força está não nas coisas que se pode ter, mas naquele que dá a força: “tudo posso naquele que me dá forças” (Fl 4,13). A importância da solidariedade, ensina o apóstolo, é porque quem partilha com quem precisa, recebe de Deus a recompensa: “Fizestes bem em compartilhar as minhas dificuldades” (Fl 4, 14). Àquele que se solidariza “Deus proverá esplendidamente com sua riqueza a todas as vossas necessidades, em Cristo Jesus.” (Fl 4,19).

E assim voltamos à festa oferecida pelo Rei. Uma festa para a qual todos foram convidados e deram as mais divergentes respostas, recusando ao convite. Mas o fato é que o rei encheu sua sala de festas.

E aqui surge um episódio intrigante. Depois de tanto insistir para que a sala estivesse repleta de convidados, parece estranha a atitude do rei mandando retirar da festa aquele que ali se encontrava “sem o traje de festa” (Mt 22,11-12).

Para entender isso, precisamos de um pouco de atenção. Todos são convidados. Todos entram na sala de festa. E só depois, durante a festa, é que o rei se dirige àquele sem o devido traje. E depois de interpelar o convidado o rei o manda retirar da sala (Mt 22,13). Por qual motivo?

Aparentemente a expulsão ocorre pela ausência do traje adequado. Mas se os convidados estavam pelas “encruzilhadas dos caminhos” (Mt 22,9), seguramente também não trajavam roupas de festa. Então o que ocorre?

Ocorre que o rei interpela o convidado. Mas este não tem resposta. O rei pergunta: “Amigo, como entraste aqui sem o traje de festa?” (Mt 22,12). A ausência do traje foi o motivo do questionamento. Mas diante da pergunta, o convidado nada responde. Se não ocorreu a resposta não aconteceu interação. E se não ocorre interação, entre os convidados, a festa perde o sentido.

A festa é para todos os povos, diz Isaías (25,6). Mas antes da festa, no cotidiano, deve ocorrer a partilha solidária, diz Paulo (Fl 4,14). Faltando isso, falta interação. E se falta interação, não ocorre a alegria da festa, nem a participação e compromisso com o projeto da criação. A ausência desse comprometimento produz a escuridão e o choro pelo vazio da existência.

Neri de Paula Carneiro

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Esperava deles frutos de justiça

Que espera o agricultor, quando lança a semente ao chão? Que espera o operário, ao fim de um período de trabalho? Que esperam os pais, depois dos filhos crescidos? Que espera o professor, ao longo da jornada de ensino? Que espera alguém que faz planos e projetos para sua vida e seu viver…? Que esperar…? Essas são algumas das indagações que se pode fazer neste vigésimo sétimo domingo do tempo comum.

As condições para um bom relacionamento entre as pessoas; para a felicidade da família; para o pleno desenvolvimento das pessoas; para um mundo justo; para a plenitude humana; para a harmonia entre os diferentes… Para haver sucesso nessas e noutras situações, as condições nos são oferecidas. Mais do que oferecidas: nos são dadas. São dons divinos em nós e para nós. E o quê fazemos com tudo que nos é entregue, gratuitamente, pelo Senhor da vida?

Essas situações e indagações nos são apresentadas por Isaías (5,1-7) ao falar do vinhedo que só “produziu uvas selvagens”, apesar de ter sido preparada para “que produzisse uvas boas” (Is 5,2).

As condições para a implantação do bem, são dadas como graça divina em plenitude. Tanto que o Senhor se pergunta: “que mais poderia eu ter feito?” (Is 5,4). A pergunta, na verdade, é uma afirmação: “já fiz tudo”. Ou seja, a plenitude da graça é dada, mas as pessoas preferem recusar o dom recebido. Em Isaías, o vinhedo é o povo de Israel que está, cada vez mais, afastado dos caminhos do Senhor. E por isso o profeta anuncia a devastação (Is 5,5-6).

Os dirigentes do povo causaram a ruína do povo. “Eu esperava deles frutos de justiça - e eis injustiça; esperava obras de bondade - e eis iniquidade.” (Is 5,7). Mas o povo também erra, pois segue aos dirigentes inescrupulosos. Por esse motivo os dirigentes do povo e o próprio povo sofrem as consequências, que se concretizou como a ruína da nação, invadida por uma potência estrangeira. E a consequência definitiva foi o “cativeiro na Babilônia”. E trazendo para o nosso cotidiano e para a atualidade de nossa vida: como estão agido nossos dirigentes? E nós, os estamos seguido no mar de corrupção ou lutamos por um país melhor? E se lutamos por algo melhor por que eles continuam lá? É necessário darmos uma resposta, sob pena de sermos igualados às videiras que só produziram uvas imprestáveis.

De acordo com a narrativa de Mateus (21,33-43) e da mesma forma que Isaías, Jesus se dirige aos dirigentes do povo, “sumos sacerdotes e os anciãos do povo” (Mt 21,41). Mas Jesus vai além do profeta. Ele mostra que o problema não está no parreiral, que é o povo, nem do proprietário do plantação, que é o Senhor, mas nos vinhateiros, que são os dirigentes do povo. Esses mataram os enviados (os profetas) do dono da vinha (Mt 21,35-36) e também mataram o filho do proprietário. Tudo com o propósito de roubar a herança (Mt 21,38). Todas as ações dos dirigentes do povo foram desonestas. E sua desonestidade causou dificuldades para o povo que acabou sendo iludido pelos seus dirigentes.

Que fazer com esses administradores desonestos?

Na proposta de Isaías, perderam a nacionalidade e foram exilados. Mas depois de quatro décadas de exílio o Deus clemente e pleno de graça e perdão, concede o retorno dos exilados com o propósito de reestruturar a fé, desenvolvendo a crença que alimentou a esperança na vinda do Messias.

Ocorreu que os novos dirigentes, que deveriam reconhecer o Messias não o fizeram e, por isso perderam, não mais o território, mas a primazia de ser o povo luz do mundo. 21Diante da perversidade dos dirigentes do povo, Mateus anuncia a sentença: “O Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos.” (Mt 21,43). E assim nasce uma nova fé: a crença daqueles que acreditam em Jesus, os cristãos encarregados de construir um mundo de justiça.

Com a finalidade de evitar que este novo povo se desvirtue, Paulo (Fl 4,6-9) faz recomendação e dá as diretrizes. O objetivo é que essa comunidade possa crescer, não só na caridade mas, principalmente, na justiça que é uma das formas de manifestar a fé.

O apóstolo, constatando que na comunidade de Filipos existem alguns problemas, faz a recomendação: “Quanto ao mais, irmãos, ocupai-vos com tudo o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, honroso, tudo o que é virtude ou de qualquer modo mereça louvor.” (Fl 4,8). Mas sabendo que até isso poderia não ser entendido ou seguido, o apóstolo se oferece como modelo, dizendo algo como: “Em vez de fazer as besteiras costumeiras, façam aquilo que ensinei.”

Nas palavras do apóstolo: “Praticai o que aprendestes e recebestes de mim, ou que de mim vistes e ouvistes. Assim o Deus da paz estará convosco.” (Fl 4,9). E talvez o apóstolo tenha completado, ao falar pessoalmente: “Façam o que ensinei e que suas ações ampliem os meus atos, para que em sua vida e em sua comunidade ocorra a plenitude da justiça”

Neri de Paula Carneiro

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

O outro é mais importante

Qual é a conduta correta? Por que Cristo foi exaltado? Quem faz a vontade do pai? São, estas, algumas das perguntas que a liturgia deste vigésimo sexto domingo do tempo comum, nos apresenta. Como respondê-las?

O próprio Ezequiel (18,25-28) se encarrega de responder à sua indagação. A conduta correta é arrepender-se da maldade e praticar a justiça. E, dessa forma, é possível conservar a vida. (Ez 18,27). E o profeta explica: quando alguém se “desvia da justiça, pratica o mal e morre, é por causa do mal praticado” (Ez 18,26) que ele morre.

Cabe ressaltar que a morte à qual o profeta está se referindo, diz respeito distanciamento completo de Deus, ao final da vida terrena. E, também, talvez seja por isso que se popularizou a afirmação de que o mal que atrai o mal; e o bem atrai o bem!

Em seguida vem a outra indagação, sobre o porquê de Cristo ter sido exaltado. A resposta é apresentada por Paulo, na carta aos Filipenses (Fl 2,1-11). Cristo foi exaltado porque não se apegou ao seu ser igual a Deus (Fl 2,6). Pelo contrário, abriu mão de tudo para se igualar a nós (Fl 2,7). E, mais ainda, não só se igualou a nós, mas entregou-se à morte por nós. “E morte de cruz” (Fl 2, 8), explica o apóstolo dos gentios. A morte de Cristo, portanto, é uma morte redentora, que pode conduzir à vida, ou seja à convivência definitiva com Deus.

Dissemos que “pode conduzir à vida” porque essa convivência definitiva com o Senhor, não depende de Deus, mas de nós. A decisão cabe a cada um de nós. Deus oferece; nós aceitamos ou recusamos… como fizeram os dois irmãos, mencionados por Mateus (21,28).

E assim chegamos à terceira indagação, apresentada por Mateus (21,28-32). Trata-se de um discurso a respeito da postura de dois irmãos que agem diferentemente das respostas que deram ao seu pai. Falam o oposto daquilo que realmente executam. E a partir disso é que Jesus pergunta àqueles que são representantes do povo: “quem fez a vontade do pai?” (Mt 21,31) E os representantes do povo, mesmo não fazendo o que lhes é de obrigação fazer, souberam responder corretamente. Fez a vontade do pai aquele que lhe disse não, mas executou o trabalho. Eles sabiam qual a resposta correta, mas não estavam tendo a postura correta, pois sabiam como conduzir o povo para Deus, mas agiam como se isso não tivesse a menor importância.

E Jesus os repreende, não por causa de sua resposta, mas por causa de sua postura. Não adiante nada saber o que se tem que fazer, mas não realizar essa obra.

E, neste ponto, não é excessivo reiterar a afirmação de que é necessário tomar cuidado para não realizar algo que deve ser feito por “competição ou vanglória”. As obras do bem não devem ser feitas porque se pretende mostrar a capacidade de fazer o bem, como oriente Paulo: “Nada façais por competição ou vanglória,mas, com humildade, cada um julgue que o outro é mais importante” (Fl 2,3). Além disso, a boa ação para o outro deve ser “para o outro” e não uma ação/ajuda pensando na retribuição que se pode receber, por ter feito algo de bom. Se o bem é feito pensando na retribuição a receber, não foi um bem, mas uma troca de favores...

Isso implica dizer que não é o fato de poder ostentar o bem realizado que conta; também não importa saber do bem a realizar, sem, no entanto, fazê-lo. Nessas circunstâncias não há mérito naquilo que se realiza. Para o Senhor importa não o que se sabe ou o que se mostrou…, mas o que vai no coração. Isso é o que ensina Ezequiel ao dizer que “Quando um justo se desvia da justiça, pratica o mal e morre, é por causa do mal praticado que ele morre. Quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça, conserva a própria vida.” (Ez 18, 26-27). No caso dos dois irmãos, em Mateus: não fez a vontade do pai aquele que concordou com ele, mas o filho que depois de discordar realiza a sua vontade.

Podemos não entender o que Deus nos reserva, mas isso não nos impede de realizar sua vontade. E, além disso, todo aquele que se ocupa em fazer algo pensando no outro, esse tem a aprovação divina. Esse está realizando a vontade do Pai.

Neri de Paula Carneiro

Todos os Santos