O que podemos e o que não podemos fazer, durante a celebração da Palavra ou durante a Missa (Celebração da Eucaristia) ou nas celebrações dos outros sacramentos?
Antes de respondermos isto, temos que nos perguntar: o que vamos fazer na igreja (o templo) em que nos reunimos para a celebração? (Lembrando que chamamos de igreja – escrita com letra minúscula – aquela construção onde nos reunimos para celebrar. Diferente de Igreja, que é a assembleia dos fiéis. Podemos dizer que a Igreja reúne-se na igreja).
Vamos à igreja para: encontrarmo-nos com os demais membros da comunidade que comungam a mesma fé; celebrar nossa fé; ouvir a Palavra de Deus; participar da celebração que faz a memória da entrega de Jesus.
Não vamos à igreja para: bater papo; mostrar uma roupa nova; mostrar que sabemos mais do que os outros; fazer fofoca; falar da vido dos outros…
A igreja, nosso templo, é uma casa de oração, por isso foi que Jesus se zangou (Jo 2,16) contra aqueles que haviam transformado o templo num ponto de encontro e comércio. O templo, é casa de encontro, para a oração em comum.
Lembremo-nos que Jesus ensinou duas formas de oração:
Oração individual para fazer no silêncio das nossas casas (Mt 6,6);
Oração comunitária (Mt 18,20), no templo. Jesus mesmo fazia dessa forma: afastava-se do grupo para orar em silêncio e frequentava o templo para as orações em comunidade.
Nossa sintonia com Deus deve ocorrer em nosso cotidiano, em cada momento, em cada ação, no silêncio do nosso coração. Também deve ocorrer, pelo menos uma vez por semana, em sintonia com os demais crentes, na casa de oração, junto com toda a Igreja.
A oração pessoal pode e deve ser feita em qualquer lugar; em qualquer momento. Para agradecer e pedir.
Por que devemos nos reunir, na casa de oração? Para agradecer a Deus os dons recebidos; para pedir graças; para nos fortalecermos diante das dificuldades; para rezarmos uns pelos outros.
E como devemos fazer essa oração comunitária? PARTICIPANDO das celebrações!
O encontro na casa de oração não é para assistir à Missa, nem para ouvir o que dizem os ministros. A igreja não é uma casa de espetáculo onde vamos assistir a uma apresentação. Nem a equipe que dirige a celebração são artistas apresentando-se em um show. O padre, os ministros, a equipe de cantores, os leitores, os salmistas, os acólitos e coroinhas… estão realizando uma função litúrgica e não numa apresentação teatral; não estão ali para serem vistos, aplaudidos ou criticados. Sua função é ajudar a comunidade a participar de um ato celebrativo. E a comunidade, a Igreja, também está lá para celebrar e, portanto, não deve permanecer indiferente a tudo que acontece. Para isso, a equipe que conduz a celebração tem a função de motivar a todos para a celebração; ajudar a todos a entrarem em sintonia com Deus.
Assim sendo, se a celebração é o ponto de encontro e sintonia com Deus, não é momento de: conversar com quem está do lado; mexer em celular; reparar a roupa, o cabelo ou qualquer outra coisa das pessoas. Não é momento de sair para tomar água nem levantar para dar um passeio lá fora. É tempo de prestar atenção no que está sendo celebrando; aproveitar para estabelecer um clima de intimidade com Deus; seguir, com atenção, os ritos litúrgicos que são canais de encontro com Deus.
O encontro celebrativo é para participarmos como um corpo. Podemos entender melhor se compararmos a uma refeição. Vamos usar o almoço como exemplo. Quais partes de nosso corpo usamos para almoçar? as mãos, a boca e na maioria das vezes nos sentamos. Porém, quando ingerimos o alimento, todo o corpo participa, no processo digestório e na assimilação dos nutrientes. As mão não são mais importantes que os pés, pois sem os pés não conseguimos chegar até onde as mão vão manipular o alimento… e assim todos os demais membros do corpo.
A equipe litúrgica pode ser comparada com as mãos que manipulam o alimento para que todo o corpo seja alimentado: são as mãos que entregam o alimento ao corpo que é a comunidade; as mãos que servem o corpo.
Os diferentes membros do corpo de Cristo, que é a Igreja, reúnem-se para celebrar. E isso só acontece quando não agimos como se fossemos plateia num show ou num teatro. A celebração, portanto, depende da nossa participação. A celebração é um diálogo da comunidade com Deus.
Em qualquer lugar, em qualquer tempo, para que haja um bom diálogo, é necessário saber ouvir e saber falar.
Em nossa conversa com Deus, que ocorre na celebração (tanto da Missa como da Palavra) existem momentos em que Deus nos fala e nós ouvimos. E momentos em que nós falamos e Deus nos ouve: saber ouvir e saber falar.
E quais as posições de nosso corpo, durante esse diálogo, que é a celebração, ou o ato litúrgico?
Durante a celebração há momentos em que nos ajoelhamos, sentarmos e ficamos em pé
O que significam os gestos de ficar em pé, sentar e ajoelhar?
Em pé é a atitude de prontidão. É a atitude de quem ressuscitou e está pronto para caminhar com Jesus. Sentado é a atitude do discípulo que ouve. É a atitude de quem se dispõe a ouvir o ensinamento, a proposta de Deus para ser vivida ao longo da semana e durante toda a vida. Ajoelhado é a atitude de prostração. É a atitude de quem está morto nas fraquezas, na indiferença, no pecado. Por isso é que depois de se ajoelhar, a pessoa se levanta como a dizer que estava morto e com Cristo está ressuscitando.
Iniciamos a celebração em pé, por que é momento da chegada, do encontro. Depois nos sentamos para ouvir o que Deus nos tem a dizer, nas leituras. Ficamos em pé para acolher e ouvir Jesus falando na proclamação evangelho. Sentamos, novamente para ouvir a explicação das propostas que Deus nos fez por meio de sua Palavra.
O sinal de que estamos cientes, entendemos e concordamos, com a proposta divina é colocarmo-nos em pé. Levantamos dizemos que acreditamos e por isso fazemos nossas confidências ao Senhor: oração do creio e as preces.
Agradecendo a generosidade divina, nós nos oferecemos a ele. Oferecemos nossa vida no ofertório. Como símbolo dessa entrega, podemos depositar o fruto de nosso trabalho representado pelo dinheiro no cesto da coleta. Depois do ofertório vamos nos preparar para a refeição, por isso nos colocamos em pé.
Na missa, no momento da consagração, podemos ficar em pé ou ajoelhados. Mas sempre com os olhos voltados para o altar, em sintonia com o gesto de entrega de Jesus que se oferece como pão e vinho.
Em seguida nos colocamos em pé porque vamos receber de Deus o alimento para a vida: o corpo e o sangue de Cristo. O momento da comunhão é o ponto alto da festa em que nos encontramos com o Cristo Ressuscitado e que se oferece como alimento para nos dar vida.
Quem vai comungar caminha para receber o Senhor. Quem não vai comungar, permanece sentado, cantando, pois numa festa tem que haver alegria. Terminada a refeição, a comunhão, vamos nos preparar para voltarmos aos nossos lares levando Deus Conosco. O Deus que nos falou e que nos alimentou vai junto conosco para permanecer em nossos lares e nos iluminar em nossos afazeres durante a semana.
E, na semana seguinte voltamos à igreja para, como Igreja nos revigorarmos e refazermos o percurso celebrando a presença de Deus entre nós.
Neri de Paula Carneiro
Mestre em Educação, filósofo, teólogo, historiador.