quinta-feira, fevereiro 19, 2026

A QUARESMA

Pode parecer estranho, mas todos os anos a Igreja nos convida a repetir as celebrações quaresmais. Embora por caminhos distintos, a mesma jornada litúrgica que se inicia justamente com Quaresma e se coroa com a PÁSCOA DO SENHOR, prolongando-se pelo Tempo Pascal. E isso se renova a cada novo Ano Litúrgico.

Caminhos distintos porque celebramos três ciclos litúrgicos, ou seja, celebramos os mistérios da vida, morte e ressurreição de Jesus ao longo de três anos a partir de leituras bíblicas que configuram os três Anos Litúrgicos (ano A, ano B e ano C). E tudo converge para a Quaresma e culmina na Páscoa do Senhor.

E aqui estamos falando apenas sobre as celebrações do Ciclo da Páscoa, e não de todo o ANO LITÚRGICO. Este, como sabemos começa com o Advento, coroa-se com o Natal e prolonga-se pelo pelo Tempo de Natal, configurando o Ciclo do Natal.

Cada um de nós que frequenta regularmente a comunidade religiosa e com ela celebra os Mistérios do Senhor, sabe que a Quaresma e todas as demais celebrações que a partir dela se prolongam como que preenchem nossa fé, nosso imaginário, nosso processo de conversão, nossa esperança, nossa curiosidade…

E, podemos dizer, essa é uma característica da Quaresma. Uma resposta que a Igreja nos apresenta para nos ajudar a entender a doação de Jesus ao mesmo tempo que celebramos o mistério de sua entrega.

Então, o que é a Quaresma e o que nela celebramos?





Quaresma

Vem de quadragésima ou quarenta, querendo representar os quarenta dias que Jesus se retirou, jejuou, orou e preparou-se para agir em favor das pessoas (Mateus 4:1–11, Marcos 1:12,13 e Lucas 4:1–13).

Tem a ver com quarar, limpar, purificar, reconciliar. Trata-se de um tempo no qual a Igreja nos propõe fazermos uma revisão de vida; nos propõe abandonarmos aquilo que pode estar nos distanciando de Deus; nos propõe voltarmos a ele de forma mais pura em vista da constante e eterna união.

A Igreja nos ensina, nas palavras das Normas Universais para o Ano Litúrgico e Calendário (NUALC) que: “O Tempo da Quaresma visa preparar a celebração da Páscoa; a liturgia quaresmal, com efeito, dispõe para a celebração do mistério pascal tanto os catecúmenos, pelos diversos graus de iniciação cristã, como os fiéis, pela comemoração do batismo e penitência” (NUALC 27). Ao promulgar as Normas, o Papa Paulo VI tinha em mente o que os bispos haviam recomendado no número 109 da Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia (SC): “Ponham-se em maior realce, tanto na Liturgia como na catequese litúrgica, os dois aspectos característicos do tempo quaresmal, que pretende, sobretudo através da recordação ou preparação do Baptismo e pela Penitência, preparar os fiéis, que devem ouvir com mais frequência a Palavra de Deus e dar-se à oração com mais insistência, para a celebração do mistério pascal”

A atual perspectiva quaresmal está centrada na celebração da Páscoa, a celebração batismal e a penitência. A penitência que se popularizou na pratica do jejum, mas que vai muito além.

É tempo de Penitência: Não se trata de uma penitência por termos recebido um castigo, pois Deus não castiga. Trata-se, de um período que a Igreja nos propõe nos reconhecermos em nossas limitações. Limitações que podem nos manter afastados do Criador e por isso o tempo da Quaresma nos propõe meios de nos fortalecermos contra as fraquezas e fortalecermos nossa sintonia com Deus e sua proposta.

Isso é o que nos propõe a penitência da Quaresma: limpar nossa vida dos nossos vícios. Coisas que nos agradam, mas que desagradam ao Senhor. E uma das formas de nos penitenciarmos é a prática do jejum: abstendo-nos de algo que nos é importante, desejável ou que muito nos agrada.

Notando que nem tudo que nos agrada desagrada a Deus. Desagrada a Deus aquilo que nos diminui ou afasta de seu Plano de Amor; aquilo que produz sofrimento ou dificulta a vida dos irmãos. Um almoço em família nos agrada profundamente, e essa é uma atitude que agrada a Deus. Porém, se nesse encontro nos divertimos com as fofocas familiares, de forma que um membro da família (geralmente ausente) é malfalado, difamado… isso é agradável a nós, tanto que participamos do falatório, mas desagrada a Deus. Portanto o que desagrada a Deus é o sofrimento e fazer outros sofrerem.

A Quaresma, portanto, nos convida a rever o que fizemos e fazemos e que desagrada a Deus. E, conscientes disso, somos convidados a fazer um sério propósito de mudar nossa vida, voltando a merecermos a graça divina.

E dizemos “voltar a merecer” poque em cada ato que desagrada a Deus – mesmo que seja só em pensamento – estamos nos afastando de Deus e nisso abrimos mão de sua graça. Daí ser necessário um esforço não de reconciliação, pois Deus não nos abandonou, mas de retorno por termos quebrado a boa relação e, com isso, termos nos afastado.

A isso se presta a Quaresma.

É tempo de Oração: Um tempo de oração porque, da mesma forma que Jesus orou quando se retirou para o deserto (daí uma das características dos nossos retiros, como tempo de oração), nós também, no tempo quaresmal, podemos orar a fim de recebermos a graça de sermos capazes de nos penitenciarmos a fim de nos convertermos.

Lembrando que a conversão é uma graça que devemos implorar ao Criador mediante oração. Não como merecedores, mas como suplicantes, pois a graça divina vem para aqueles a quem Deus entrega e não para satisfazer nossas vontades ou nossa ostentação: “vejam como sou devoto!”; “sou tão devoto que rezo o terço ajoelhado!”; “Sou tão devoto que carrego o terço como um adorno pendurado no pescoço ou no braço como um colar ou bracelete!”

É necessária a nossa oração, mas não para agradar a Deus e sim por que somos gratos a ele. Oramos pedindo, mas Deus nos concede porque e quando essa é a sua vontade. Não somos dignos por merecimento, mas a merecemos por bondade do Pai.

Aqui vale o ensinamento de Jesus ao observar o que pediam o publicano e o fariseu (Lc 18,10-14). O primeiro suplicava, a partir de seu pecado, enquanto o fariseu exaltava suas virtues aparentes e se colocava acima do outro “não sou como aquele!”. O Senhor atendeu ao penitente e não ao exibicionista.

Somos convidados a orar constantemente, mas durante a quaresma podemos intensificar nossas preces pedindo a graça da conversão mediante nosso gesto de nos penitenciarmos.

A isto se presta a Quaresma.

É tempo de Caridade: O tempo da quaresma, também é um tempo oportuno para intensificarmos nossos gestos de amor aos irmãos. Notando que o amor manifesta-se no gesto caridoso. De nada vale, diante de Deus, nossa prece vazia se ela não chega a Deus recheada de gestos caridosos. Mas não a caridade ostensiva, feita para as câmaras e redes sociais. Vale para o Senhor aquela que se realiza apenas aos olhos de Deus. A caridade é uma resposta à necessidade do outro e não oportunidade de ostentação.

Novamente Jesus nos ensina ao observar as pessoas que frequentam o templo e fazem suas ofertas (Mc 12,41-44; Lc 21,1-4). Também o apóstolo Paulo já havia ensinado à comunidade de Corinto (1Cor 13,1-13): é necessário que a pessoa tenha fé e seja esperançosa; é necessário manter-se em clima de oração confiando em Deus, mas se não houver caridade essa pessoa será apenas um objeto barulhento como o sino. E sabe por qual motivo o sino soa tão alto? Porque é vazio!

Por isso, o apóstolo insiste: tudo é importante, mas tem que haver caridade. E o mais importante é a caridade. Por isso, os mestres espirituais sérios sugerem, orar intensamente e fazer penitência cotidianamente.

E se a penitência envolver a abstenção de algo que implique em custo econômico, os mestres sérios sugerem que essa economia seja revertida em oferta de caridade para sustentar obras de caridade.

E no caso do Brasil, o mecanismo que a Igreja criou, seguindo o modelo de outras igrejas ao redor do mundo, foi a instituição da Campanha da Fraternidade. Assim a CNBB nos orienta e rezarmos, fazermos penitência e a destinarmos um pouco do que economizamos em nossa penitência para as obras de caridade mantidas pela Igreja.

Entretanto, isso só tem sentido e valor, diante de Deus, se for feito por amor àquele que recebe. Pois ele vai receber aquilo que foi doado por você, como dom de Deus por meio das mãos da Igreja. Assim a tua mão direita, não saberá o que fez a tua esquerda que dá a oferta, mas o Pai que está no céu e que vê o que está oculto, e ele dará a recompensará ao ofertante (Mt 6,3-4). Deus retribui ao ofertante não por causa de sua oferta, mas porque a oferta ajudou quem precisava.

A Isso se presta a Quaresma: oração, penitência e caridade.




As origens da Quaresma

Trata-se de uma prática que se desenvolveu desde as origens da Igreja, no contexto das celebrações batismais e como preparação para a principal celebração que é a Páscoa do Senhor. Inicialmente eram poucos dias de preparação para a celebração anual da Páscoa. Ou seja, destinavam-se alguns dias para jejum e oração em preparação à celebração do batismo a fim de que o neófito (o novo batizado) pudesse participar plenamente da celebração pascal.

Isso porque, nas primeiras comunidades, os catecúmenos (adulto que estava sendo preparado para o batismo) só participava da celebração até a escuta da palavra. Depois das preces, era despedido, e voltava para casa, pois somente os batizados podiam participar plenamente da ceia pascal.

A preparação do batismo correspondia, inicialmente, à preparação dos adultos (os catecúmenos) que desejassem receber o batismo. Porém, com a expansão do cristianismo e com o fato de existirem famílias inteiras que eram cristãs, desenvolveu-se a prática do batismo de crianças. Com isso, o catecumenato deixou de ser uma exigência, pois as famílias assumiam a catequese de seus filhos batizando-os. E isso com um argumento simples: os pais sempre desejam o melhor para seus filhos, sendo assim, querem que eles estejam sempre junto a si. Entende-se, como em nossos dias, que os pais cristãos, desejam que seus filhos cresçam nessa fé. E isso estava em sintonia com o ensinamento de Jesus, a missão conferido aos discípulos (Mt 28,18-20; At 16,33): Fazer discípulos!

Porém a partir do séculos IV e V a celebração quaresmal vai ganhando novos contornos. O papa Leão Magno (sec V), por exemplo afirma que para celebrar o supremo mistério de Cristo, a Páscoa, se faz necessário que nos preparemos mediante a oração e os exercícios de misericórdia.

Com o transcorrer dos séculos, infelizmente, as práticas dos primeiros cristãos, centradas na simplicidade e profundidade litúrgica foram se perdendo. Setores da Igreja se distanciaram do Jesus pobre e despojado que se entregou livremente para resgatar a todos que por ele se decidiam (Jo 19,23-24; Mt 27,35; Jo 10,14-18). E a centralidade da entrega pascal foi envolvida pelo luxo dos paramentos. E, principalmente durante o período medieval, quando a Igreja se viu envolvida com o poder e as disputas políticas a profundidade teológica da celebração litúrgica e a dedicação aos necessitados foi superada pela ostentação e pelos paramentos luxuosos. A exterioridade ganhou espeço e a simplicidade do amor foi esvaziada.

Por volta do século XVIII, entretanto, o Espírito tocou os teólogos e liturgistas. E assim iniciou-se um movimento de retorno às origens. Passou-se a reler o ensinamento dos Santos Padres. Esse movimento produziu o movimento de Renovação Litúrgica. E a ação do Espírito que “sopra onde quer” (Jo 3,8) moveu os bispos que, no concílio Vaticano II aprovaram a Reforma Litúrgica em sintonia com o Espírito que move a Igreja.

Esses novos ventos, soprados pelo Espírito, guiou os padres conciliares que, já na metade do século XX, ouviram a voz dos mosteiros, dos teólogos, liturgistas e historiadores que chamaram a atenção para as origens. E assim, ouvindo o Espírito “que fala às Igrejas” (Ap 2,7.11.17; 3,13) e “sopra onde quer” (Jo 3,8), os bispos buscaram inspiração nos ensinamentos patrísticos. A renovação da Liturgia e da Igreja, portanto, mais do que renovar é uma volta às origens. Renovar, no espirito do Concílio Vaticano II, é beber na fonte dos Pais da Igreja.

Graças a esse movimento de renovação – ou de retorno às origens – os bispos conciliares, recolocaram a centralidade do Mistério Pascal na vida da Igreja e da Liturgia. O Concílio, portanto, veio nos recordar que é na Liturgia que se atualiza o mistério da fé e se perpetua o anúncio da paixão, morte e ressurreição de Jesus, como ensina a constituição Sacrosanctum Concilium (SC), na qual os bispos apresentaram os critérios para atualizar a liturgia em relação a cada sacramento e ao ano litúrgico (SC 102 a 104), destacando a centralidade da celebração pascal na liturgia dominical

Afirmam os bispos: “Por tradição apostólica, que nasceu do próprio dia da Ressurreição de Cristo, a Igreja celebra o mistério pascal a cada oito dias, no dia que bem se denomina dia do Senhor ou domingo. Neste dia devem os fiéis reunir-se para participarem na Eucaristia e ouvirem a palavra de Deus, e assim recordarem a Paixão, Ressurreição e glória do Senhor Jesus e darem graças a Deus que os »regenerou para uma esperança viva pela Ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos» (1 Pedr. 1,3). O domingo é, pois, o principal dia de festa a propor e inculcar no espírito dos fiéis; seja também o dia da alegria e do repouso. Não deve ser sacrificado a outras celebrações que não sejam de máxima importância, porque o domingo é o fundamento e o centro de todo o ano litúrgico.” , dizem os bispos no número 106 da Sacrosanctum Concilium.

Na sequência, esta orientação conciliar é seguida de outra, na qual os bispos reafirmam a necessidade de rever o Ano Litúrgico segundo exigem e “permitirem as circunstâncias de hoje”. Por isso orientam aos teólogos e liturgistas: “Reveja-se o ano litúrgico de tal modo que, conservando-se ou reintegrando-se os costumes tradicionais dos tempos litúrgicos, segundo o permitirem as circunstâncias de hoje, mantenha o seu carácter original para, com a celebração dos mistérios da Redenção cristã, sobretudo do mistério pascal, alimentar devidamente a piedade dos fiéis” (SC 107).

Portanto, não é demais repetir: as inovações do Vaticano II, ou a atualização (o aggiornamento) de acordo com a proposta do Papa João XXIII, não é um avanço irresponsável proposto por alguém em busca de novidades fúteis, mas um retorno às fontes, renovando a Igreja com o espírito com o qual ela nasceu! E ela nasceu por vontade e desejo do Senhor que venceu a morte em sua Páscoa: “Desejei ardentemente comer esta páscoa convosco antes de sofrer; pois eu vos digo que já não a comerei até que ela se cumpra no Reino de Deus” (Lc 22,15-16). As origens, portanto, nos conduzem à Páscoa definitiva.



A quaresma para nós

É com esse espírito que hoje celebramos a Tempo da Quaresma. Ou seja os 40 dias durante os quais os cristãos se preparam, com oração, jejum e caridade, para o centro da vida litúrgica e de nossa fé: a celebração da Páscoa do Senhor.

Inicialmente é necessário lembrar que o Tempo da Quaresma se interpõe entre nós e nosso cotidiano atribulado, corrido, atarefado, carregado de atividades… afazeres que consomem todo nosso tempo. Razão pela qual dedicamos pouco (ou nenhum) tempo para Deus. Dele tudo recebemos mas a ele pouco agradecemos; pouco retribuímos. Nossos afazeres têm mais importância do que aquele que nos concede as condições de realizar o que fazemos.

Ciente disso, a Igreja nos apresenta a Quaresma como um convite a parar. Não para deixar de viver, mas para repensarmos, inicialmente, nosso ritmo de vida. Depois para redimensionarmos nosso tempo. Na Quaresma também podemos rever nossas posturas e prioridades no cotidiano de nossa vida. É um tempo propício a nos indagarmos: o que realmente queremos para nossa vida?

O Tempo da Quaresma, é um convite que se desdobra em outros convites. 1- Convite a desacelerarmos correria do dia a dia com a finalidade de redefinirmos nossas prioridades. 2- Convite a voltarmos nossa atenção e nossas ações para aquilo que realmente importa: nossa vida e nossas relações, pois se destinamos muito tempo aos nossos trabalhos e atividades cotidianos, seguramente deixamos pouco tempo para as pessoas do nosso convívio e para Deus. 3- Convite a retomarmos o rumo do encontro: com a família, com os irmãos e com o projeto de Deus. 4- Convite à conversão, recolocando o plano de Deus como centro de nossa vida.

A Quaresma é um convite à conversão. Uma conversão que nos convida a nos prepararmos para nosso encontro com Deus e com os irmãos. Uma preparação que nos convida a fazermos da nossa páscoa a uma caminhada a fim de nos encontrarmos na Páscoa do Senhor. E, para que a Pascoa do Senhor seja plena em nós, somos convidados aos exercícios quaresmais que são agradáveis ao Senhor, como Jesus nos ensina em Mateus (Mt 6,1-18) conforme nos é apresentado na liturgia da Quarta-Feira de Cinzas: Oração, Jejum/Penitência e Caridade, mas tudo realizado de forma que somente Deus fique sabendo dos atos realizados.

E com isso somos levados àquilo que nos propõe o Espírito ao nos apresentar os desafios das Campanhas da Fraternidade. Por meio da Campanha da Fraternidade, dese o inicio da década de 1960, a Igreja nos propõe realizarmos gestos concretos de oração, jejum e caridade.

CARIDADE: Não se trata, apenas, de dar o que sobra, mas de juntar esforços para reconstruir a sociedade baseada no amor. Muito mais do que “dar esmola” por pena do necessitado, o cristão é convidado a se empenhar na reconstrução da sociedade a fim de eliminar as causas da pobreza. Eliminar aquilo que gera a necessidade de alguém pedir esmola; eliminar, portanto, as causas da pobreza de forma que a pessoa seja valorizada e reencontre os meios pelos quais possa deixar de depender da caridade tornando-se provedor de seu próprio sustento.

JEJUM: o jejum tem a ver com solidariedade. Não se trata apenas de mortificação do corpo, ou seja, não se trade de apenas deixar de comer isto ou aquilo. O corpo, que é morada de Deus, precisa ser alimentado. Mas ao nos alimentarmos devemos nos lembrar de que o que sobra em nossa mesa está faltando na mesa de milhões de irmãos. Jejuar, portanto, deve estar associado ao gesto de repartir com quem necessita.

Isso significa que o jejum pode nos ajudar a sentir o que sentem os desvalidos. Para quem tem de sobra, é fácil deixar de comer algo que nunca lhe falta. Por esse motivo, ao propor jejum a Igreja convida o cristão a rever suas posturas e seu senso de solidariedade. Ao fazer jejum o cristão deve se indagar: “como posso contribuir para que não existam pessoas passando fome, num jejum que lhes é imposto pela pobreza, obrigadas ao jejum cotidiano por lhes faltar alimento no dia a dia”?

ORAÇÃO: A oração não pode ser apenas uma repetição mecânica de formulas (Pai Nosso, Ave Maria, por exemplo). Evidentemente nossas orações costumeiras são importantes e necessárias. Porém, não podem se converter numa recitação mecânica onde a boca fala automaticamente coisas com as quais o sentimento não está unido ou enquanto o pensamento passeia.

O Pai Nosso nos convoca à fraternidade colocando-nos à disposição do Pai para fazermos sua sempre sua vontade. E sua vontade é que não exista nenhum de seu filhos sofrendo em dificuldades que podem ser evitadas pela nossa ação.

A Ave Maria nos convoca à contemplação de um modelo de mãe a ser seguido. Uma mãe que se colocou a serviço dos que precisavam dela (visitando Isabel, indicando a falta de vinho...). É, também, um pedido de ajuda para a conversão pessoal, para que a “Graça” da qual ela é “plena” nos alcance “agora” e sempre.

Além disso todas as demais formas de oração: meditação pessoal, oração comunitária, orações espontâneas de conexão com o Senhor, podem e devem ser meios de nos conectarmos com Deus, evidentemente, mas também canais de conexão com as pessoas ao nosso redor e do nosso cotidiano.

Temos que ter presente, além disso, que a oração tem uma dimensão pessoal e outra comunitária. Ou seja, além de rezarmos cotidianamente para alimentar nossa fé, somos convidados a orar em comunidade; orar com e para a comunidade de modo que a prece em favor pessoal não seja maior do que o suplica em favor da comunidade e de quem mais necessita. Portanto, a oração pode e deve ter uma dimensão pessoal de pedido e agradecimento pelos dons recebidos; mas também tem uma dimensão social e comunitária: comunitária, porque deve ocorrer junto com os demais irmãos; social porque o orante deve se preocupar com as necessidades dos outros…

E isso, se é válido para nosso cotidiano, é muito mais intenso no período quaresmal. O que fazemos ao longo do ano, deve se intensificar na Quaresma. O que não fazemos ao longo do ano, devemos nos habituar a fazer no período de recolhimento quaresmal.

E tudo isso passa pela Campanha da Fraternidade (CF). Trata-se de uma exercício que convoca à oração com a Igreja em favor de pessoas e grupos carentes ou situações que demandam transformações. Trata-se de uma campanha que propõe jejum pessoal e social em favor das causas propostas pela campanha, cujo tema e público alvo é atualizado todos os anos; trata-se de uma campanha caritativa, pois a oração é em favor do outro, o jejum tem os irmãos como motivação e o resultado econômico, provindo da coleta que se realiza no domingo de ramos destina-se a obras sociais, mantidas pela Igreja. Portanto assim como toda a Quaresma, a Campanha da Fraternidade é ação eclesial em favor dos que precisam de ajuda, de solidariedade e de nossas orações.

Jejum, oração e caridade são exercícios quaresmais que a Igreja nos apresenta para bem vivermos nosso batismo no período quaresmal e reavivarmos nossa fé ao longo do ano. Porém esses exercícios não se esgotam numa espiritualidade intimista e personalista. Pelo contrário, eles ganham sentido e relevância quando realizadas com a comunidade e com as pessoas que nos circundam.

Jejum, oração e caridade não devem ser entendidos como exercícios isolados, pessoais e mágicos, mas como momentos fortes para vivermos em sintonia com a Igreja e com cada pessoa que vive ao nosso redor e, principalmente celebrando em comunidade.



O tempo da Quaresma

Quem participa cotidianamente da vida celebrativa já deve ter percebido que o tempo da Quaresma é rico em celebrações carregadas de grande simbologia. Trata-se de um tempo com um profundo convite à conversão.

Quarta Feira de Cinzas: A Quaresma está organizada ao redor de alguns momentos litúrgicos importantes: ela se incia com a Quarta Feira de Cinzas: “Pois tu és pó e ao pó voltarás” (Gn 3,19). Prolonga-se ao longo dos domingos da Quaresma que culminam no Domingo de Ramos. E este é o inicio da Sema a Santa. Na Semana Santa celebramos a Quinta Feira Santa, com Jesus se oferecendo na Eucaristia e assim nos preparamos com o tríduo Pascal para e a celebração central da liturgia cristã, a Páscoa do Senhor.

Essa estrutura tem a finalidade de nos lembrar que sem a graça de Deus somos cinza. Somos o resto de algo que já não é. O material que gera a cinza foi um ramo verde, foi desligado do seu tronco ou de suas raízes e secou ao ponto de ser queimado, virando cinzas. Por isso, a cinza é o resto do que já não é mais. Dessa forma podemos entender esta importante celebração: Deus nos deu a vida, porém a força do pecado – pessoal e social – nos afasta do seu Plano de Salvação. E sem Deus deixamos de ser aquilo que era nosso destino no Pai. Somos, então aspergidos com cinzas para nos lembrarmos disso e ao longo dos quarenta dias da Quaresma, nos convertermos.

Ao longo dos quarenta dias, nos domingos da Quaresma, a Igreja nos propõe textos bíblicos que nos convida à conversão.

E ao final dos quarenta dias, ao longo da Semana Santa e do Tríduo Pascal, somos convidados a refazer com Jesus sua via dolorosa. E assim, quela criança que nasceu entre os marginalizados, viveu entre os excluídos é condenado e morre entre os malfeitores. Mas o autor da vida não é prisioneiro da morte por isso ressuscita e nos mostra o caminho da glória eterna. Retorna para o Pai e no seu Reino de Amor nos espera para a vida definitiva, no coração da Trindade Santa.

Domingo de Ramos da Paixão do Senhor: Durante os quarenta dias da Quaresma ocorrem os domingos da Quaresma. Porém o último, não denominamos de “domingo da Quaresma”, mas Domingo de Ramos ou o Domingo de Ramos da Paixão do Senhor.

Nesta celebração vemos o Senhor Jesus, ao mesmo tempo, sendo reconhecido e aclamado pelo povo e em seguida perseguido, preso e torturado pelos líderes religiosos e políticos da época.

Trata-se de uma celebração que representa a ambiguidade da fé: quando vivida em sua pureza, reconhece os dons que Deus oferece e multiplicam a vida; mas quando manipulada por interesses mesquinhos abandona o Senhor da vida e produz violência e a morte do inocente. Essa situação repete-se e se multiplica ao longo da história em que milhões de inocentes são mortos por aqueles que pensam que podem mais e que se consideram senhores da verdade.

Quinta Feira Santa: A Quinta Feira Santa é um dia especial, dentro da Semana Santa.

Primeiro porque, de manhã, os bispos se reúnem com os padres e diáconos da diocese para a celebração da Missa do Crisma.

Essa celebração, da manhã, tem duplo significado.

O primeiro é o sentido da unidade: o bispo e o clero da diocese, numa concelebração solene, renovam os votos de serviço à Igreja. E isso ocorre na perspectiva apresentada por Isaías: “O espírito do Senhor Iahweh está sobre mim, porque Iahweh me ungiu; enviou-me a anunciar a boa nova aos pobres, a curar os quebrantados de coração e proclamar a liberdade aos cativos, a libertação aos que estão presos, a proclamar um ano aceitável a Iahweh e um dia de vingança do nosso Deus, a fim de consolar todos os enlutados” (Is 61,1-2).

Outro significado da Missa do Crisma está naquilo que podemos chamar de “Missa da Unção” pois também são consagrados os “santos óleos” que serão utilizados ao longo do ano para as cerimonias de batizado, unção dos enfermos, crisma e ordenação presbiteral Em razão disso podemos dizer que esta é uma celebração de unidade, de bençãos e de consagração:

A Quinta feira Santa também é especial porque é o início do Tríduo Pascal e as comunidades celebram o “Lava pés” ou a Missa da Ceia do Senhor.

Com esta celebração a Igreja nos propõe refletirmos sobre a “última ceia” de Jesus junto aos companheiros de jornada. Nessa ceia derradeira Jesus instituiu o sacramento da Eucaristia, como ensina Paulo: Jesus se dá como alimento e assim permanece com os seus até seu retorno glorioso:

“O que eu recebi do Senhor, foi isso que eu vos transmiti: na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e disse: ‘Isto é o meu corpo que é dado por vós. Fazei isto em minha memória’. Do mesmo modo, depois da ceia, tomou também o cálice e disse: ‘Este cálice é a nova aliança, em meu sangue. Todas as vezes que dele beberdes, fazei isto em minha memória’. Todas as vezes, de fato, que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, estareis proclamando a morte do Senhor, até que ele venha”. (1Cor 11,23-26).

Tríduo Pascal: A celebração da ceia do Senhor é, também, o início do Tríduo Pascal. Ou seja, com esta celebração a Igreja entra no clima de reflexão com o qual percorrerá a Sexta Feira Santa e o Sábado. Celebrando a entrega do Senhor que vai nos conduzir à exultante alegria da Ressurreição, na celebração da Vigília Pascal que ocorre na noite de sábado para domingo. É a celebração da vida vencendo a morte. É a celebração em que Jesus, confirma que é o Cristo vencedor da morte e aquele que resgata a humanidade.

É o coroamento da missão de Jesus de Nazaré, para evidenciar a divindade do Cristo. “Jesus, sabendo que o Pai tinha colocado tudo em suas mãos e que de Deus tinha saído e para Deus voltava” (Jo 13,3).

Por isso, não estacionamos na ceia derradeira, da quinta feira; não ficamos na lamentação da entrega da Paixão, da sexta feira; não ficamos impotentes no silêncio do Sábado Santo. O que fazemos, então?

Exultamos de alegria na vigília da noite de sábado cantando a grandeza do Deus. Ele que libertou seu povo da escravidão do Egito, na antiga páscoa. Pelo sangue de Cristo na cruz, mostra-nos o caminho da vina na Ressurreição do Senhor, que celebramos na noite luminosa da Ressurreição.

Ao longo de todo o Sábado Santo, o dia de silêncio, liturgicamente permanece a mesma sensação da sexta feira: sensação de perda, de ausência, de derrota, de incerteza… geradas pela morte do Senhor. Por isso o Sábado Santo é o dia de: “e agora, o que fazer?”

Mas, e isso o sabemos pela nossa fé: Jesus morreu, sim. Porém, já não está morto. “ressuscitou, conforme havia dito” (Mt 28,6) e manifesta-se à mulheres; depois manifestou-se aos seus, como atesta o apóstolo Paulo (1Cor 15,3-8).

O Tríduo Pascal, e todo o Sábado Santo é tempo silêncio para refrearmos e redirecionarmos nosso ritmo de vida e associarmo-nos às vítimas de cruzes impostas: desemprego e falta de moradia; doenças evitáveis; fome provocada pela concentração de bens; discriminação e exclusão social. As cruzes impostas às vítimas do malquerer, das mentiras, das intrigas na sociedade e no trabalho…. As cruzes geradas pelas agressões à natureza e toda a criação que geme e reage, gerando outras cruzes manifestadas nos desastres ambientais... Em todas estas e também noutras situações, Jesus Cristo continua sendo crucificado; e quando alimentamos essas situações continuamos a manter Jesus no sepulcro, mesmo sabendo de sua ressurreição.

Porém, e isso celebramos no sábado da Luz, toas essas cruzes e dores podem ser superadas pois a própria morte foi superada por Jesus, o Cristo. Por isso é que, se no Natal a Igreja exulta de alegria ao cantar “Glória a Deus nas alturas…”, na Vigília Pascal a explosão de alegria é cantar “Aleluia, Cristo ressuscitou!”

A Vigília Pascal é a Celebração da vida. Vida que se manifestou em todas as ações de Jesus de Nazaré e que se manifesta na ressurreição do Cristo Jesus. Por isso é que Paulo, afirma a vitória da vida: “Morte, onde está tua vitória?” (1Cor, 15,55).

A celebração da Vigília Pascal completa e dá sentido da celebração do Natal: o Filho de Deus nasceu para iluminar nossa vida, caminhou entre homens e mulheres como ser humano, mostrando ao ser humano como devem agir as pessoas para construir humanidade. Ao final de sua caminhada, ao concluir sua trajetória humana volta ao Pai indicando a todos o sentido da vida e que o caminho para a eternidade passa pela cruz; mas que as dores do dia a dia não são o fim. Deus não se alegra nem se diverte com nosso sofrimento, mas nos dá o exemplo de Jesus de Nazaré para nos encorajarmos e seguirmos adiante.

A vida de Jesus, suas ações e palavras em favor dos desvalidos, explicam-se na celebração da Páscoa. E toda a história do povo bíblico ganha um sentido novo, como o próprio Jesus afirma, ao questionar os caminhantes desolados: “Não era preciso que o Cristo sofresse tudo isso e entrasse em sua glória?” (Lc 24,26). Tudo isso para que se cumprisse a promessa da vida eterna, que se realiza na eterna vida do Ressuscitado; promessa feita com o sangue vertido na cruz e aceita por quem cumpre o mandamento do amor (Mt 22,36-40), uma vez que desse mandamento, afirma Jesus, de “dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22,40).

Toda a simbologia quaresmal; o clima penitencial; os fortes momentos de oração; o jejum solidário e a caridade… direciona-se para a nova luz que se inaugura na Vigília Pascal. Por isso a Nova Páscoa, a Páscoa de Jesus Ressuscitado ilumina-se no inicio da celebração com o fogo novo que manifesta ao mundo a luz que é conduzida para o interior do templo como para iluminar toda a Igreja: “Eis a Luz de Cristo!”Assim a Igreja atualiza a Páscoa de Jesus que é também a nossa Páscoa, caminhando para a Pascoa definitiva…




Sugestões de leitura

Para aprofundar estas informações podem ser consultadas inúmeras obras. Mencionamos apenas algumas. Os textos bíblicos citados foram retirados da Bíblia de Jerusalém, verão on line, disponível em: https://liturgiadashoras.online/biblia/biblia-jerusalem/; Também pode ser consultada, com muito proveito, a versão da Bíblia Sagrada Edição Pastoral, versão on line, disponível em: https://biblia.paulus.com.br/.

1- ADAN, Adolf. O Ano Litúrgico. São Paulo: Loyola. 2019.

2- AUGÉ, Matias. Ano litúrgico: É o próprio Cristo presente na sua Igreja. S. Paulo: Paulus, 2019.

3- APOSTOLADO MOTUS LITURGICUS. Cerimonial da Semana Santa http://www.ipascomnet.com/paroquia/inc.download/22062010094856Cerimoniario%20senama%20santa.pdf. 2010.

4- BOFF, Leonardo. O rosto materno de Deus. 4 ed. Petrópolis: Vozes, 1986.

5- BROWN, R. E.; DONFRIED, K. P.; FITZMYER, J. A.; REUMANN; J (orgs). Maria no novo testamento. São Paulo: Paulinas, 1985.

6- CNBB. Liturgia: Fonte e ápice da vida e ação da Igreja, Brasília: Edições CNBB.

7- CNBB. Liturgia na Ação Evangelizadora: Uma leitura litúrgica das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, Brasília: Edições CNBB.

8- CORBELLINI, Dom Vital. O Sentido do Domingo de Páscoa a partir dos Padres da Igreja. Diocese de Itapetininga. https://diocesedeitapetininga.org.br/o-sentido-do-domingo-da-pascoa-e-da-oitava-a-partir-dos-padres-da-igreja/. 2015.

9- DERETTI, Edson Adolfo. O Ano Litúrgico. São Paulo: Paulus. 2019.

10- FERREIRA, Eurivaldo Silva. O Ano Litúrgico como itinerário teológico e pedagógico da fé. Dissertação (mestrado em teologia), PUC-SP. São Paulo, p. 303. 2013.

11- GEBARA, Ivone; BINGEMER, Maria Clara L. Maria, mãe de Deus e mãe dos pobres. Petrópolis: Vozes. 1987.

12- HIPÓLITO DE ROMA. Tradição Apostólica de Hipólito de Roma. https://www.ecclesia.com.br/biblioteca/pais_da_igreja/tradicao_apostolica_hipolito_roma.html#1.%20Vida.

13- JUSTINO. Apologia I In: Antologia litúrgica. Textos litúrgicos, patrísticos e canônicos do primeiro milênio. Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia, 2003.

14- MARSILI, S. Sinais do Mistério de Cristo: Teologia litúrgica dos sacramentos, espiritualidade e ano litúrgico, São Paulo: Paulinas, 2010.

15- PRESBÍTEROS.org.br. PASCHALIS SOLLEMNITATIS: A Preparação e Celebração das Festas Pascais https://presbiteros.org.br/paschalis-sollemnitatis-a-preparacao-e-celebracao-das-festas-pascais/. 2024.

16- PRESBÍTEROS.org.br. Rubricas para a Celebração da Semana Santa https://presbiteros.org.br/rubricas-para-a-celebracao-da-semana-santa/. 2024.

17- SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Comentário às cartas de São Paulo 2, coleção Patrística 2. São Paulo: Paulus, 2010.

18- SCHMIDT, Pe. Gerson Maria na vida pública e na paixão de Cristo. In: www.vaticannews.va. 2023. https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2023-05/maria-na-vida-publica-e-paixao-de-cristo.html. Acesso em 13 de março de 2024.

19- SCHMIDT. Pe Gerson. Tempo Pascal – celebração única até Pentecostes https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2024-04/tempo-pascal-celebracao-unica-ate-pentecostes-padre-gerson-sc.html. 2024.


Neri de Paula Carneiro.

Mestre em educação, filósofo, teólogo, historiador

Outros escritos do autor:

Filosofia, História, Religião: https://www.webartigos.com/index.php/autores/npcarneiro;

Literatura: https://www.recantodasletras.com.br/autores/neripcarneiro;

E.Books: https://www.calameo.com/accounts/7438195.

domingo, janeiro 11, 2026

A vida é má: uma cronica para além da ironia

A Paz…

Desejada qual boca da pessoa amada! Sonhada para toda a vida!

Mas a vida não quer a paz. A vida leva para a morte! A vida se entrega nos braços da morte!

Pare, pense, a paz é diferente. Reflita: A paz é do bem!

A paz pode produzir alegria, conecta o mundo e pode pôr as pessoas em sintonia para viver, pois viver é bom. O viver pode ser salutar, mas só se for para viver em paz. Se é verdade que viver é bom, a vida deixa a desejar.

A paz gera festa, comemoração, faz bem ao coração. A paz faz a pessoa exultar de emoção. Não se contém e quer abraçar o mundo, as pessoas, a multidão. A paz vai além da sensação, espraia-se feito onda frágil, mas valente e constante na imensidão.

A paz, as vezes teimosa, desabrocha feito flor; semeia sementes para proliferar em seu perfume… e não se importa por não chegar em primeiro lugar. Aceita vir depois, mas quer chegar. Quer ir a todos e a todos abraçar, mesmo que seja por pouco tempo, até que algum louco a atropele…

Mas a danada da paz, vai além de si mesma. E que coisa incrível, veja que coisa louca é a paz, pode até gerar mais vida. Ela sabe que é bom viver em paz, apesar da vida ser má.




A vida…

A vida não é assim. A vida é má. A vida sempre termina em morte!

Está certo e é certo o que dizem: muitos jovens sobrevivem, vão além, sua vida se prolonga como adulto até a velhice… Porém, como o tempo, a vida não para! E se é verdade que muitos são os jovens que não morrem, também é verdade não existe velhice que não termine em morte.

A vida até tolera alguns jovens, mas não respeita os velhos e, sorrateira, atira todos os velhos na incógnita da morte.

A vida é irmã e cúmplice da morte. A vida não quer o viver, a vida quer a morte!

A vida, por maravilhosa que seja, sempre trai o vivente. Carrega-o nos braços como mãe embalando o filho… mas tropeça no tempo e, do nada, abandona o vivente. E este, sem vida, descansa na morte.

O destino da vida é a morte; o sentido da vida é a morte!

E vai além, a vida não escolhe dia nem momento; não escolhe alegria, dor ou sofrimento… é seu contentamento abandonar, deixar o vivente…

Sai, sorrateira… A alguns engambela e prolonga-se em dor. Disfarça-se numa doença incurável, como quem diz, “se cuida!” Porém, qual cuidado, qual nada, ela se esvai feito goteira pingando vida até encontrar o funda seco da caixa vazia. E a vida entrega sua última gota à morte.

Má é a vida.

A uns dá saúde, a outros só sofrimento. A uns dá alegria, a outros só desalento. A uns dá riqueza a outros, padecimento. A uns dá de tudo, mas de todos se retira, sopro de vento.

Má é a vida.

Para alguns dá riqueza sem conta, mas lhe tira a saúde; a outros dá saúde inquebrável feito diamante, mas junto vem sobrecarga de trabalho; o pobre passa a vida a trabalhar, sem a saúde da vida gozar. E, pior de tudo, o trabalho sangra a vida no labor enquanto só alguns podem acumular.

Má é a vida, mata o pobre de tanto trabalhar, mata o rico sem a vida aproveitar…

“E a vida, o que é? Diga lá, meu irmão”

Sopro do Criador? Triste caminhar? Trabalho, feito dor, para vida ganhar? Esforço para viver em paz?

Só no fim a vida é justa: não escolhe rico, pobre, feio ou lindo… no fim, toda vida termina em morte.




A morte?

A morte, essa moça eterna, a tudo nivela, pois tudo na vida termina nela.

A morte, garota discreta, não se mostra, nem se dá antes da sua hora predileta.

A morte, menina madura, com a vida se encontra, mas com ela não se mistura.

E, já que na vida se caminha para a morte, essa amiga do fim da vida vem chegando de mansinho… aproxima-se diariamente, discretamente, constantemente, sorrateiramente, inexoravelmente… e a cada segundo mais se aproxima; a cada minuto, a cada hora, a cada ano vivido a mais, é um ano a menos de vida, a caminho da morte.

Em cada comemoração de “mais um ano de vida”, ela sorri e olhando nos olhos do vivente, repete o refrão: “mais um ano a menos…”

E a vida, sorrindo com ironia, olha para o vivente enquanto a morte, no silêncio do vida, convida: “vem, repousa em meus braços. Eu te espero desde o teu nascimento”

E só no fim da vida, em plena morte… é só aí quando a última gota de vida se esvai na morte é que algum louco lembra e diz: descanse em paz!




Neri de Paula Carneiro


domingo, dezembro 21, 2025

TODO PROFESSOR



Todo professor pode encontrar um aluno, em qualquer lugar… mas nem sempre um aluno encontra um professor quado precisa…

Deixa-me explicar.

É que as pessoas ainda precisam aprender o que a humanidade já sabe e, para isso, depende daqueles que sabem ensinar e sabem o que ensinar. E essa pessoa é o professor!

Você ainda não está entendendo, não é mesmo?

Vou explicar melhor.

Era o final do meu último ano de teologia no final dos “anos oitenta, charrete que perdeu o condutor”.

Já de malas prontas, preparava-me para voltar ao meu estado, o Paraná. Organizava meus livros quando meu mestre manda-me mensagem, mais ou menos nestes termos: “Passe em minha sala, antes de partir”.

Não entendi o porquê, pois já tínhamos conversado bastante; ele já me havia passado várias orientações para minhas atividades; ele me havia falado da importância de escrever… porém, como não se nega a um chamado do mestre… de malas prontas, passei pela sua sala.

Como sempre, pela porta aberta podia-se vê-lo: debruçado sobre os livros. Invariavelmente, se não estava lecionando, estava em sua sala estudando e escrevendo. A cena dele estudando destacava-se no contraste com a luz que entrava pela janela, iluminando sua mesa, seus livros e sua inseparável Remington Rand, de cujo teclado se ouvia o tec-tec!

Naquela sala, além do meu professor e mestre biblista, vivia um milhão de milhões de livros, livres pelas estantes e sobre pilhas de outros livros. Dentro daquele ambiente a gente mal se podia mover sem dar de cara com uma montanha de livros sobre as cadeiras ou sobre uma outra pilha de livros de outros tantos livros.

Entrei e lá estava ele, sobre sua cadeira à frente de sua mesa. Datilografando alguma coisa.

“Sente-se, ali!”, indicou a cadeira estofada, onde já me sentara inúmeras vezes. Era o único móvel sobre o qual nunca havia livros. Se alguém fazia essa observação, de ser o único móvel onde não havia livros, ele respondia que não existe nada melhor do que sentar e conversar, olhando nos olhos dos amigos.

“Tu vais amanhã”. Seu tom era mais de afirmação que pergunta. “Sim, logo de manhãzinha”, respondi, já sentindo saudades das suas aulas sobre o mundo antigo.

À minha resposta ele respondeu levantando-se e, retirando de um armário à sua direita, entregou-me uma caixa retangular.

“Sei que tu gostas de escrever. Leio alguns dos teus escritos naquele jornal… Leve isto para continuar a se desenvolver. Lembra-te que na pregação escrita tu continuas falando, mesmo quando vais dormir”.

E assim nasceu minha amizade com aquela “Olivetti lettera 82”. Com ela mantive colunas em alguns jornais no Paraná e em Rondônia, a exemplo do que já fizera em Florianópolis, como estudante de teologia. Ainda hoje, em cada texto que publico, lembro da voz do mestre dizendo que a escrita continua nosso grito, quando já não estamos presente; ou que continuamos presente em nosso texto enquanto o texto existir, mesmo além e depois de nós.

Ao publicar meus escritos, lembro do mestre que me presenteou com uma máquina de escrever. Naquele momento ele me ensinou que os filósofos e teólogos de séculos, ou milênios, passados permanecem vivos porque seus textos chegaram a nós. E enquanto seus textos circularem entre nós, eles não morrerão.

Divorciei-me da velha Olivetti para iniciar um novo relacionamento, com um jovem muito versátil e com mais recursos: o computador. Mas guardo boas recordações daquele casamento com a Lettera 82, um amor que nasceu na sala do meu mestre.

Hoje, findando o primeiro quarto do século vinte e um, encontrei um jovem que desejava um relacionamento estável com minha “coroa”. E foi assim que o presente do meu mestre vai dar vida às palavras de outro jovem sonhador...

Que sejam felizes e que desse casamento surjam muitos filhos: poesias, crônicas, contos, romances… para que suas crias continuem falando quando ele for dormir.




Neri de Paula Carneiro

Mestre em educação, filósofo, teólogo, historiador

Outros escritos do autor:

https://pensoerepasso.blogspot.com/

Filosofia, história, religião: https://www.webartigos.com/index.php/autores/npcarneiro;
Literatura: https://www.recantodasletras.com.br/autores/neripcarneiro;
E.Books: https://www.calameo.com/accounts/7438195.




sexta-feira, novembro 07, 2025

A Basílica do Latrão e o santuário de Deus

Reflexões baseadas em:

Ezequiel 47,1-2.8-9.12; 1 Coríntios 3,9c-11.16-17; João 2,13-22


Desde muito cedo aprendemos que Deus está em todo lugar e vive em nós, pois nosso corpo é seu templo. Mas também, desde muito cedo aprendemos que devemos nos encontrar com outras pessoas num templo ao qual, popularmente chamamos de igreja, comunidade, matriz, paróquia, catedral…, por ser esse é o local de encontro com Deus. Da mesma forma, desde muito cedo ouvimos pessoas dizendo: “não vou à igreja porque rezo em casa” ou “pra que ir à igreja se Deus está em todo lugar?”

Em qual dessas afirmações devemos acreditar?

O que nossa fé nos ensina?

Nossa fé, que nasce da Bíblia, dos ensinamentos da Igreja, da tradição eclesial e também familiar, nos assegura que Deus nos acompanha em todos os lugares em que estamos. Nossa fé, orientada pela Igreja, que se baseia na Palavra de Deus, nos diz que devemos nos reunir regularmente com outras pessoas que professam a mesma fé. E essa reunião acontece num local determinado que é um templo da nossa Igreja.

É nesse templo que as pessoas demonstram e afirmam ao mundo que alimentam a mesma fé. E essa confissão de fé, muito mais do que com palavras, é expressa com a presença, com o comparecimento, com o comprometimento. E assim, nesse encontro, movido pela fé comum, as pessoas que se encontram dizem umas para as outras e para o mundo, que: alimentam a mesma fé, são impulsionadas pela mesma esperança, comungam dos mesmos princípios, aprovam os mesmos comportamentos, compartilham a mesma certeza de fé e sabem que Deus está com elas e nelas. E isso porque Deus vive em cada pessoa.

Esse é o sentido da reunião periódica que, em nosso caso do catolicismo, ocorre no domingo, o Dia do Senhor. Nessa reunião de oração, as pessoas, que são templos de Deus reúnem-se num templo para celebrarem a presença do Senhor.

Considerando tudo isso é que nos perguntamos qual o significado da festa litúrgica da “Dedicação da Basílica do Latrão”? Uma catedral que se origina no século IV, que passou por reformas, foi destruída e reerguida e finalmente, em 1724, foi consagrada pelo Papa Bento XIII.

Como Catedral de Roma, a Basílica do Latrão representa todos os demais templos do mundo e, ao mesmo tempo, todos os cristãos. Ou seja, é dessa basílica que emanam os rios e as águas do cristianismo, levando a fertilidade da fé, a fim de fertilizar o mundo: alimentando a fé dos crentes e animando ao mesmo tempo que falando de esperança para os que não creem, conforme podemos ler na profecia de Ezequiel (47,1-2.8-9.12).

Dela emana a fé, como os rios da profecia. A fé cristã, como o rio, permite que as pessoas plantem as sementes para gerar árvores de vida. E “Seus frutos servirão de alimento e suas folhas serão remédio” (Ez 47,12), a fim de curar as dores do mundo.

Por que desse templo emana o rio de vida? Porque esse templo representa o próprio Senhor da vida. O templo que irmana todos os que alimentam a fé comum naquele que é maior do que o templo, como o afirma o próprio Senhor, nas palavras de João (2,13-22).

E ele é maior do que o templo porque ele é o Templo vivo. Não um templo erguido por mãos humanas mas o Templo vivo que é o próprio Filho de Deus.

Por esse motivo, porque as pessoas olham apenas para o templo de pedra é que muitas vezes têm dificuldade de reconhecer o Templo vivo que vive nas pessoas. Da mesma forma que os judeus não entenderam quando lhes falou que reergueria o Templo em três dias.

Eles profanavam o templo de pedra, que é casa de oração e ponto de encontro para os crentes. Desrespeitavam a casa, desrespeitavam a tradição de fé do seu povo e desrespeitavam ao próprio Senhor que aceitava o louvor, no templo construído. Contra isso Jesus se irrita e por esse motivo expulsa os mercadores da fé; e daí nasce a afirmação de Jesus: “Destruí, este Templo, e em três dias o levantarei. Os judeus disseram:’Quarenta e seis anos foram precisos para a construção deste santuário e tu o levantarás em três dias?’ Mas Jesus estava falando do Templo do seu corpo.” (Jo 2,19-21).

Nessa perspectiva entendemos as palavras de Paulo. Também o apóstolo não se refere ao templo como casa de oração, mas ao templo que é o corpo da pessoa humana (1Cor 3,9c-11.16-17). O apóstolo é categórico ao afirmar que cada pessoa é um edifício de Deus. Mas, o apóstolo ensina, esse edifício que somos cada um de nós, tem a mesma base, o mesmo alicerce, o mesmo ponto de sustentação, que é Jesus Cristo.

O apóstolo vai além, dizendo que estão errados os que tentarem colocar outro alicerce. “ninguém pode colocar outro alicerce diferente do que está aí, já colocado: Jesus Cristo” (1Cor 3,11). E por qual motivo não se pode colocar outro fundamento? Porque em Jesus nos tornamos morada do Espírito (1Cor 3,12).

Daí a importância e necessidade do respeito ao ser humano. Quem ama a Deus, e sabe da importância de se reunir para celebrar a mesma fé no templo de pedra, também precisa saber que todos os que ali se encontram – e os de fora também – são moradas do Espírito.

Por isso é mentiroso aquele que diz amar a Deus e não ama ao irmão; por isso é mentiroso quem diz que ama o Espírito, mas não ama seu templo que é a pessoa humana. “Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá, pois o santuário de Deus é santo, e vós sois esse santuário” (1Cor 3,17). Disso o apóstolo não abre mão e por isso insiste em que não se coloque outro alicerce, ou seja, Jesus, o Cristo que vive em nós, por isso nos reunimos para celebrar a mesma fé, no mesmo templo, pois todos somos santuários de Deus.






sexta-feira, setembro 12, 2025

Exaltação da Cruz – A serpente mortal e o Cristo da cruz

Reflexões a partir de:

Números 21,4b-9; Filipenses 2,6-11; João 3,13-17.




Quem lê a bíblia com honestidade percebe que ela desmistifica muitas afirmações equivocadas ou tendenciosas. E ler a bíblia com honestidade significa lê-la a partir de seu contexto e da intenção do autor inspirado por Deus.

Quando o mundo católico festeja a Exaltação da Cruz, alguns podem ver idolatria nisso. Outros podem dizer que estamos distorcendo a fé, enaltecendo o símbolo do suplício de Jesus.

Muito diferente disso é o sentido da festa a Exaltação da Cruz.

Para entendê-la é necessário observar a teologia que o Autor Sagrado imprimiu em seu texto.

Embora, neste momento, a liturgia não esteja utilizando a perícope do Gênesis em que a serpente é expulsa do paraíso, para bem entendermos a pequena passagem do livro dos Números (21,4b-9) precisamos ter presente aquela simbologia da serpente.

Da mesma forma, para bem entendermos o discurso do evangelista João (3,13-17), no qual Jesus afirma ter vindo ao mundo para salvar, precisamos ter presente o texto de Números. Além disso, para entendermos a belíssima descrição que o apóstolo Paulo faz de Jesus (Fl 2,6-11), precisamos ter presente não só o primeiro capítulo do evangelho de João como os demais textos sobre a atuação de Jesus e, entre eles, este em que ele afirma ter descido e que será levantado.

Isso posto, indaguemo-nos: o cristão pode ao não usar imagens em sua casa ou em seu templo, como sinais de algo muito superior, algo para o que a imagem remete e do que ela é só um pequeno lembrete?

Se olharmos apenas a letra do mandamento divino, “Não farás imagens…”, a resposta é NÃO. Se considerarmos os textos aqui mencionados, a resposta é: DEPENDE da situação. Depende do que desejamos com aquilo que fazemos.

Se estacionamos no gesto, no símbolo ou na imagem, significa que estamos precisando repensar nossa postura. Buscar mais entendimento. Amadurecer nossa fé. Olhar para além das aparências. Levantar o véu para ver o que está por trás das palavras.

Precisamos fazer isso para entendermos o significado da festa da exaltação da cruz. Não se olha para a cruz, porque ela é uma cruz, mas porque foi nela que Cristo nos redimiu. Não se olha para a cruz, como um amuleto, que muitos ostentam como adereço, mas como o fardo que cada um de nós deposita sobre os ombros do Senhor, no caminho do calvário. Não se olha para a cruz como um sinal de castigo ou punição exemplar, (era esse o objetivo nos tempos antigos), mas porque foi essa uma condição e caminho assumido por Jesus a fim de demonstrar ser ele o Cristo.

Com isso, podemos olhar para a narrativa do livro dos Números. Aqui está escrito que “o povo começou a impacientar-se, e se pôs a falar contra Deus e contra Moisés” (Nm 21,4-5). Em razão dessas reclamações morria quando atacado por inimigos venenosos, as serpentes do deserto (que também devem ser vista como símbolo). Porém, dando-se conta de seu pecado, o povo pede a intercessão de Moisés a quem Deus atende, dizendo: faça “uma serpente de bronze e coloca-a como sinal sobre uma haste; aquele que for mordido e olhar para ela viverá" (Nm 21,8).

Lá no livro do Gênesis, ao reprimir o casal infrator que queria “ser como Deus”, o Criador afirma a inimizade entre seus descendentes. Aqui, em Números, essa inimizade está explicita. Qual é, então o gesto redentor de Deus? Construir um sinal: uma serpente de bronze. Para quê? Para que as pessoas, ao serem atacadas pelo inimigo, olhem para o sinal e se recordem da grandeza de Deus. Percebam que o animal maldito foi transformado em símbolo da salvação tanto no deserto como em nosso cotidiano. Entretanto, não é o símbolo, serpente, que salva, mas o próprio Deus. Não é a cruz, condenação dos malditos, que salva, mas é mediante a cruz que Jesus se entrega por nós! É Deus que nos salva pela cruz!

E quem é esse Deus que salva? E salva até aquele pecador que reclama contra Deus, e depois de se arrepender, pede perdão!

Esse Deus é aquele apresentado por Paulo. Aquele que “existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,6-8). Ou seja, assumiu a morte reservada aos malditos porque nos quer abençoar em seu amor. Por ter se esvaziado da divindade, fazendo-se humano e condenado à cruz, “Deus o exaltou”, não como ostentação, não como vingança, não como demonstração de poder, mas como convite a que todos dobrem seus joelhos. Dobrem-se e o reconheçam e assim “toda língua proclame: Jesus Cristo é o Senhor’” (Fl 2,11).

Com isso, somos convidados a ouvir o próprio Jesus afirmando: da mesma forma que no deserto, quem olhava para a imagem da serpente de bonze ficava livre do veneno do inimigo, agora, quem olha para a cruz e nela reconhece em Jesus, o Cristo, esse tem “a vida eterna”.

Da mesma forma que no Gênesis, Deus não mandou a serpente para ser sinal de perdição, mas para cobrar fidelidade, também no deserto Deus não mandou a serpente para matar os blasfemos, mas para cobrar arrependimento. Da mesma forma que Deus não concedeu ao Filho o esvaziamento da divindade, encarnando-se como homem, apenas como um capricho divino, mas o fez para bem manifestar-se. Da mesma forma Deus não permitiu que Jesus assumisse a cruz como a punição de um maldito, mas o fez “para que todos aqueles que nele crerem tenham a vida eterna”.

Em Jesus, a cruz foi assumida, não mais como desgraça, mas como chave para o céu. Por isso o convite, olhar para a cruz para e nela ver o cristo salvador, como no deserto se olhava para a serpente para manter a vida… só que agora, vida eterna.




Neri de Paula Carneiro.

Mestre em educação, filósofo, teólogo, historiador

Outros escritos do autor:

Filosofia, História, Religião: https://www.webartigos.com/index.php/autores/npcarneiro;

Literatura: https://www.recantodasletras.com.br/autores/neripcarneiro;

E.Books: https://www.calameo.com/accounts/7438195.

quarta-feira, setembro 03, 2025

ORAÇÃO DO COMPROMISSO

Senhor, Pai, Filho e Espírito de Vida,

agradeço pelo mundo que nos destes:

um presente e um lar para crescermos construindo teu Reino.

Ensina-me a te reconhecer no rosto do irmão;

Ensina-me servir a quem precisa, pois nele tu estás;

Ensina-me a partilhar os bens, como teu Filho ensinou;

Ensina-me e entender que a singeleza do amor são dons do teu Espírito;

Ensina-me a ter um coração puro para ver no outro a tua imagem;

Ensina-me que a ação solidária é o caminho mais curto para o mandamento do amor;

Ensina-me a ler tua mensagem, nas páginas da criação;

Ensina-me a buscar a luz da tua Palavra para iluminar onde vivo, meu trabalho e o mundo;

Trindade Santa, que minha oração não fique só em palavras, que ela seja sementes que tu semeias através dos meus atos.

Amém!

sexta-feira, agosto 22, 2025

À mesa do Senhor

Reflexões a partir de:

Isaías 66,18-21; Hebreus 12,5-7.11-13; Lc 13,22-30.




Em tempos de correria e refeições apressadas…

Em tempos nos quais não se tem tempo de sentar-se à mesa…

Em tempos em que o sentar-se à mesa, com a família, parece coisa de outros tempos…

Em tempos assim somos chamados a ouvir Jesus afirmando (Lc 13,22-30) que alguns não poderão participar da mesa do Senhor.

Em tempos assim, quem são os excluídos da mesa do Senhor?

Porém, antes de nos ocuparmos com aqueles que serão excluídos no fim dos tempos, olhemos a situação a partir de outro ponto de vista: Quem são os incluídos, ainda nestes nossos tempos?

A lista é longa.

Desde as primeiras palavras da Bíblia, o Senhor da Criação vem mostrando quem está incluído. Deus quer ser conhecido e se dá a conhecer. Para isso envia seus mensageiros. Entre eles estão os profetas. E Isaías é um deles (66,18-21), um dos que transmitem o recado divino.

A partir da palavra de Isaías , ficamos sabendo que Deus decidiu enviar mensageiros para “terras distantes”. Ele quer falar, quer ser conhecido, quer convidar aqueles que “ainda não ouviram falar em mim e não viram minha glória” (Is 66,19). Com isso Deus indica que não exclui.

E o profeta não deixa dúvidas: o Senhor quer incluir aqueles que, aparentemente, não faziam parte da mesa. No convite transmitido pelo profeta está claro: há um povo escolhido para uma missão, para levar a mensagem. Mas isso não exclui os outros, pois a mensagem é de inclusão; o convite é para incluir os destinatários da mensagem e não só os mensageiros!

Note-se, portanto, que todos são convidados. Da mesma forma que os “filhos de Israel”, todos os povos “levarão sua oferenda em vasos purificados para a casa do Senhor” (Is 66,20).

Ou seja, não há um povo escolhido, de forma que outros sejam excluídos. O Senhor é o Deus de todos os povos! Todos estão incluídos em seu convite. E isso vale para todos os tempos. Nós, hoje, também somos convidados. Também fomos incluídos na lista dos convidados. E a resposta ao convite não são as palavras, mas a própria vida, pois o convite tem o carimbo da eternidade.

É neste ponto que entra a outra situação acenada em Hebreus (Hb 12,5-7.11-13), falando sobre a modalidade educativa da ação de Deus. Trata-se de uma ação que se assemelha à atitude dos pais em relação aos filhos.

Com que finalidade?

Mostrar como devem comportar-se os filhos de Deus, convidados a sentar-se à mesa do Reino, junto a Deus. Esse processo educativo estende-se ao longo de todas páginas bíblicas. E o resultado que o Senhor deseja é um só: manter-se numa atitude de quem busca a superação das dificuldades, aprendendo com elas. Aquele que compreende as lições de Deus são capazes de produzir frutos “de paz e de justiça para aqueles que nela foram exercitados” (Hb 12,11).

Aqueles que são convidados a sentar-se à mesa do Senhor também recebem apoio para se reerguer constantemente; são apoiados para se manter com as mãos firmes a fim de construir dias melhores; joelhos fortes para não cair no desânimo ao longo da missão; pés incansáveis na caminhada em direção ao irmão, ajudando-o a fim de que também se mantenha nos caminhos do Senhor: “firmai as mãos cansadas e os joelhos enfraquecidos; acertai os passos dos vossos pés, para que não se extravie o que é manco, mas antes seja curado” (Hb 12.13).

Mas qual é a porta para a mesa do senhor; qual o caminho que nos leva a participar da mesa na casa do Pai? Qual é o caminho da inclusão, no plano do Pai e na comunhão dos irmãos?

A resposta nos vem da voz de Jesus. Não é um caminho de facilidades; não é um projeto de regalias; não é uma avenida de flores… pelo contrário, ensina-nos o Senhor, participar da mesa do Reino, na casa do Pai, exige seguir a orientação de Jesus: "Fazei todo esforço possível para entrar pela porta estreita. Porque eu vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão” (Lc 13,24).

Mas por que Jesus fala em dificuldades, em “porta estreita”, se o projeto de Deus é a salvação de todos? É convidar a todos para sentarem-se à sua mesa?

A questão é que as dificuldades fazem parte do caminho. E são o parâmetro para saber quem está assumindo e acolhendo o convite para a mesa do Senhor. É na dificuldade que se prova a fé. É na passagem pela via estreita, pela estrada das dificuldades, pela porta das dores que se demonstra a confiança no Senhor.

No dia a dia da segurança e tranquilidade, quando se tem mesa farta e conforto poucas vezes se tem tempo para Deus. A tendência é o afastamento do Senhor e dos irmãos. A fartura não impede, mas dificulta o contato com Deus, gera postura de exclusão do outro, pois o desejo de acumular pode converte-se em mais uma divindade.

Porém quando ocorrem as dificuldades, muitos gritam pedindo ajuda de Deus. A presença da dificuldade pode abrir dois caminhos. Em um se busca: a superação, a força divina para ir em frente, a mão de Deus como amparo, a luz de Deus iluminando os caminhos e esperança. Por outro lado, a dificuldade pode levar ao desespero que nasce da falta de confiança no Senhor. Por isso as portas e os caminhos se estreitam, é que as dificuldades oferecem boa oportunidade de participar da mesa do Senhor.

O convite de Jesus, para sentar-se à mesa do Senhor passa pela porta estreita porque, embora o convite seja para todos, a fartura do mundo ou o desespero das dores podem converter-se em distrações e desvios.

O convite é universal: “virão homens do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar à mesa no Reino de Deus”. E todos são incluídos porque aceitam o convite. Mas também existem os excluídos, aqueles que não encontram tempo para Deus, que vive no irmão.
 
Neri de Paula Carneiro.

Mestre em educação, filósofo, teólogo, historiador

Outros escritos do autor:

Filosofia, História, Religião: https://www.webartigos.com/index.php/autores/npcarneiro;

Literatura: https://www.recantodasletras.com.br/autores/neripcarneiro;

E.Books: https://www.calameo.com/accounts/7438195.

sexta-feira, agosto 01, 2025

O apocalipse não é

O apocalipse não é o que as pessoas falam. Não é o que dele pensam!

O Livro do Apocalipse não diz o que dizem que ele diz: não descreve o fim do mundo!

O apocalipse não é e não será do jeito que as pessoas pintam ou pensam: não se trata de um evento do futuro, mas uma análise do presente em vista das alegrias vindouras!

Então o que é o apocalipse? Que livro é esse que chamam de Apocalipse? Qual a razão do medo que ronda quando alguém menciona a palavra apocalipse ou o livro do Apocalipse?

Não sei a resposta. Mas sei que não é tudo isso que se diz, envolvendo esse ar de catástrofes e cataclismos e monstros dos horrores… isso sei que não é!

Como não sei a resposta, vou buscá-la.

Como não sei grego nem latim, e muito pouco de português, vou procurar respostas pesquisando tudo isso e a própria Bíblia.

Como sei que existem muitas ideias tortas, e gente querendo entortar ainda mais, vou buscar luzes que me ajudem a tirar o véu da ignorância. Não por mim, pois sei em quem deposito minhas esperanças (2Tm 1,12). Vou buscar as explicações porque, disse Jesus, vão aparecer falsos messias… e muitos eles já estão por aí espalhando discórdia… (Mt 24,24) e são esses que deturpam o apocalipse, querendo disso tirar proveito! “Hão de surgir falsos Messias e falsos profetas, os quais apresentarão sinais e prodígios para enganar, se possível, os eleitos. Quando a vós, porém, ficai atentos. Eu vos predisse tudo” (Mc 13,22-23).

E quando for pesquisar o significado dessa palavra, as pesquisas me dirão que lá em sua origem apocalipse vem de “apocalipsis” que pode ser entendido como ato ou processo de se retirar a cobertura, uma forma de descobrir e mostrar o que até aqui estava encoberto… vou descobrir que, na Bíblia, tem vários textos apocalípticos, tanto no Antigo e no Novo Testamento. E não é para predizer o fim catastrófico do mundo...

E quando for pesquisar, também vou descobrir que, lá nas suas origens, o apocalipse não se refere a nenhum evento espetaculoso. Não se refere a tremor de terra, raios e trovões. Não se refere a “chuva de estrelas”. Não tem nada a ver com essa de produzir medo e terror.

E tem mais, quando eu for pesquisar vou descobrir que todas essas descrições de coisas ameaçadoras, assustadoras, devastadoras… são construções literárias com efeito simbólico para apontar uma outra realidade que, essa sim, é a razão do apocalipse, pois com toda essa simbologia essa linguagem evidencia o que está escondido nos planos de Deus: “eu te bendigo, pai, porque escondeste estas coisas aos sábios…” (Mt 11,25).

E ainda tem mais. Quando eu for pesquisar vou descobrir que Deus não age assim, provocando estardalhaço. Deus não precisa nem depende disso para se dar a conhecer. Deus não faz espetáculos para a plateia nem shows para ficar famoso. Deus não se apresenta assustando ninguém. Quer ser respeitado, amado... mas não temido!

E ainda tem algo a mais a ser acrescentado. Quando eu for pesquisar sobre o apocalipse, sobre a palavra apocalipse, sobre o significado de apocalipse, sobre o livro do Apocalipse, vou descobrir que as ações divinas são diferentes disso tudo que se diz por aí. As ações divinas ocorrem no dia a dia, sem estardalhaço! As ações divinas, assim diz a Bíblia, lá no livro dos Reis (1Rs 19,11-13), não está na tempestade, mas na brisa refrescante, reconfortante… Foi na brisa suave que Elias ouviu a voz de Deus.

O problema é que antes que eu possa continuar minha pesquisa, para saber o significado do apocalipse, alguém vai me interromper, dizendo: “Mas a descrição do apocalipse, narrada no livro do Apocalipse, fala disso!”; “O livro do Apocalipse descreve as catástrofes que acontecerão antes do fim do mundo!”; “Lá no livro do Apocalipse fala sobre monstros e terremotos e catástrofes cósmicas, e monstros…”. E eu respondo que sei disso, mas isso é simbólico! É um jeito codificado de explicar as coisas! E como linguagem codificada, para decifrar e entender, tem que achar a chave de decodificação.

Sou obrigado a interromper minha pesquisa sobre o apocalipse para reafirmar: O Apocalipse não é isso que está descrito e desenhado e narrado e anotado e predito… O apocalipse é uma palavra com a qual os autores transmitem uma mensagem, usando um gênero literário. Na realidade o apocalipse é um gênero literário que se caracteriza justamente por essa linguagem: simbólica, enigmática, descrevendo animais fantásticos e assustadores, números… mas não se destina a assustar! Dá até para dizer que era uma linguagem codificada. E aqueles símbolos e monstros e enigmas e números… cujo significado nos parecem estranhos e complicados, eram códigos conhecidos para os destinatários dos textos apocalípticos. Para eles não tinha nada de estranho. Era coisa do seu cotidiano. Por isso é que, de vez em quando, sai da boca de Jesus ou aparece nos textos apocalípticos expressões como: “quem tem ouvido para ouvir que ouça”; “ouça o que o Espírito diz às Igrejas” (Ap 2-3)(Mt 13,9; Mc 4,23; Lc 8,8). “Aqui é preciso discernimento. Quem é inteligente calcule o número da besta, pois é numero de homem…” (Ap 13,18). Com isso o autor do texto apocalíptico está oferecendo a chave de interpretação, como quem diz: leia com atenção o que estou falando, pois vocês conhecem o código. Vocês sabem, mas os inimigos não sabem. Portanto, tomem cuidado ao decifrar a mensagem. Portanto, não é uma linguagem para assustar, mas para reanimar, não para meter medo, mas para iluminar, indicar caminhos, orientar, incentivar, encorajar!!! Portanto, quem é inteligente…! “Quando, portanto, virdes a abominação da desolação, de que fala o profeta Daniel, instalada no lugar santo – que o leitor entenda!” (Mt 24,15).

Sou obrigado a interromper minha pesquisa para reafirmar que essa linguagem simbólica, própria do gênero literário chamado apocalipse, não foi criada para assustar. Era um jeito de falar, naquele tempo em que o estilo foi criado: tempos difíceis! Era um jeito de falar e isso ajudava as pessoas, encorajava as vítimas! Essas estavam em apuros e dificuldades e sofrendo e sendo perseguidas e com risco de perder a vida… não porque o mundo estava chegando ao fim, mas porque era necessário lançar uma restiazinha de luz e esperança para encarar os perseguidores e inimigos. Se os tempos estavam se mostrando difíceis, o autor do texto apocalíptico apresenta uma alternativa: a superação dos problemas com o empenho de todos e a proteção de Deus. Por isso repete e mostra o prêmio oferecido àqueles que erguerem a cabeça, enfrentarem as dificuldades e passarem pela provação: “ao vencedor darei…” (Ap 2,7.11.17.26; 3,5.12.21). Trata-se, sempre, de uma linguagem de esperança… de encorajamento, de otimismo, de conforto… pois os perseverantes vencem!

Na minha busca pelo sentido e significado do apocalipse, que não foi escrito para assustar, mas para encorajar, encontrei não palavras de medo, mas de encorajamento: “Ele colocou a mão direita sobre mim, assegurando: NÃO TEMAS. EU SOU O PRIMEIRO E O ÚLTIMO, O VIVENTE. ESTIVE MORTO, MAS EIS QUE ESTOU VIVO!” (Ap 1,17)

Na minha busca pelo sentido e significado do apocalipse, pude entender. Estamos diante de uma linguagem simbólica, mas não se trata de um clima de ameaça, para assustar ninguém. Estamos diante de uma linguagem enigmática, mas não se trata de mistério tenebroso, pois a intenção é indicar a direção oposta, com pistas para superação das dificuldades representadas e clocadas pelos donos do poder e das riquezas. Estamos diante de uma linguagem, para nós cheia de mistérios, mas clara e cristalina para os contemporâneos do autor… que pretendia indicar quem e quais eram os perigos e as pistas para a superação… e a superação sempre foi e será Jesus, o Ressuscitado.

Na minha busca encontrei não os medo, mas a coragem. Não a tristeza, mas a perseverança. Não a angústia, mas a esperança. Não que se vá negar as dificuldades cotidianas, mas no texto está a afirmação de uma certeza: as dores são passageiras e a vitória virá. E essa não é uma promessa de algum pregador espertalhão, que promete te livrar disto ou daquilo em troca de grana. Quem promete é o próprio Jesus, o vencedor: “Também vós, agora estais tristes, mas eu vos verei de novo e vosso coração se alegrará e ninguém vos tirará vossa alegria” (Jo 16,22).

Na minha busca pude ouvir as palavras de Jesus, o vencedor: “No mundo tereis tribulações, mas tende coragem, eu venci o mundo!” (Jo 16,33).

Então, agora você entendeu? Entendeu porque o Apocalipse não é uma linguagem de medo? Entendeu porque, o livro do Apocalipse não é uma coleção de descrições de catástrofes assustadoras? Entendeu porque o Apocalipse é um convite não só ao encorajamento, mas principalmente para ouvir as promessas do vencedor? Entendeu que estamos diante não da descrição do fim do mundo, mas de um convite à perseverança que prevalece sobre as dores cotidianas?

Então, sugiro que entendamos de uma vez por todas: o apocalipse não é descrição de dores vindouras, mas promessa de bençãos futuras: “Nunca mais haverá maldição”. As dores cessarão e a luz do cordeiro iluminará a todos, na cidade santa onde “ninguém mais precisará da luz da lâmpada, nem da luz do sol, porque a luz do Senhor Deus brilhará sobre eles” (Ap 22,3.5).

Então, e para isso é necessário um ato de fé, no processo da construção do Reino, haverá sofrimento mas com ele instalado, ninguém mais vai sofrer. Isso é o que afirma o autor do apocalipse (21, 4), dizendo que o próprio Deus será o amparo dos perseverante que superarem as maledicências dos promotores de maldades: “Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto nem clamor, e nem dor haverá mais. Sim! As coisas antigas se foram!”
 

Neri de Paula Carneiro.

Mestre em educação, filósofo, teólogo, historiador

Outros escritos do autor:

Filosofia, História, Religião: https://www.webartigos.com/index.php/autores/npcarneiro;

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quinta-feira, julho 03, 2025

Os nomes escritos no céu

Reflexões baseadas em: 
Is 66,10-14; Gl 6,14-18; Lc 10,1-12.17-20


 

Alegrai-vos e exultai!

Esse é o grito estimulante do profeta Isaías (Is 66,10-14), oferecendo alento ao seu povo. Mas o que levou o profeta a fazer esse convite?

Ele se dá conta de que “a mão do Senhor se manifestará em favor de seus servos” (Is 66,14).

Na realidade o profeta está falando aos seus concidadãos, no retorno do exílio. Por esse motivo ele refere-se a Jerusalém como o lugar em que se poderá celebrar a paz entre as nações. Esse será o ponto a partir do qual manifesta-se a fonte da paz: “Eis que farei correr para ela a paz como um rio e a glória das nações como torrente transbordante” (Is 66,12). Por isso é que a “mão do Senhor se manifestará”, pois havendo paz, a vida pode florescer.

Tudo isso em relação a Jerusalém e aos repatriados, povo merecedor da atenção do Senhor, pois, naquele momento, é um povo sofredor.

Porém o tempo passou. O povo é outro. A situação mudou… entretanto, a palavra de Deus continua sendo a mesma e atual!

Sendo assim, permanece a indagação: Por qual motivo os servos do Senhor devem extravasar sua alegria?

Agora, a resposta vai além do que disse o profeta. A fonte da paz já não é uma cidade, mas o novo povo. Um povo que também tem motivos para se alegrar e exultar…

Agora a responta nos vem não mais do profeta, mas nas palavras de Paulo (Gl 6,14-18).

Agora é o apóstolo de todas as gentes que apresenta um novo motivo; uma nova fonte de alegria pois os valores são outros. E, principalmente, há um novo povo!

O apóstolo nos informa e orienta ao dizer: nada tem mais valor do que estar com Cristo; o que conta é a nova criatura que nasce no seguimento de Jesus; o que conta é a paz e a misericórdia que se expandem a partir dos que se deixam conduzir pelo Senhor.

Esse ensinamento do apóstolo manifesta-se quando nos diz que “nem a circuncisão, nem a incircuncisão têm valor; o que conta é a criação nova.” (Gl 6,15). Isso porque a glória do ser humano é a “cruz do Senhor nosso, Jesus Cristo”. Nisso reside o sentido da caminhada, da peregrinação humana neste mundo mergulhado nas dores e problemas e dificuldades; em meio à competição desenfreada e desonesta, diante da exploração dos fortes sobre os fracos, dos espertalhões tirando proveito da simplicidade das pessoas de bem… É aí que o apóstolo aponta para um novo e definitivo sentido.

Ele mostra para que não haja dúvidas: o sentido da caminhada não está no caminho, nem no enaltecimento da dor, representada pela cruz, mas em seguir os passos de Jesus (Lc 10,1-12.17-20). E fala isso porque Jesus não parou na cruz! O sentido da peregrinação está na busca pela superação dos sofrimentos, pois ninguém nasceu para sofrer; o sentido está no entendimento de que a cruz não é o objetivo, ela é só um ponto de transição, uma ponte, uma chave, uma porta que se abre para o que vem depois. Por isso o apóstolo mostra o exemplo de Jesus, que não ficou na cruz. Ele a usou, mas não permaneceu nela. Por isso é que a cruz aponta para o que vem depois.

E o que é que vem depois? Vem depois do quê?

Sabendo que a cruz é o símbolo das dores, dos sofrimentos, das doenças, da fome, da miséria, da exploração, do egoísmo, da mentira… sabendo que na cruz estão representadas todas as mazelas humanas Paulo ensina que tudo isso foi superado pela ressurreição do Senhor. Portanto, depois da cruz vem a concretização das promessas de Jesus.

Depois da cruz está o mestre que acolhe os discípulos enviados em missão. Discípulos que voltam radiantes de alegria por terem feito maravilhas. E, mais uma vez, esse não é o objetivo, não é o ponto de chegada. Não é aí o ponto de encontro com o Senhor. Tudo isso é importante, porém o mestre explica que isso é só o começo: “Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem. Antes, ficai alegres porque vossos nomes estão escritos no céu” (Lc 10,20).

E aqui tem um detalhe importante: nossos nomes não estarão escritos no céu porque sofremos carregando nossas cruzes de cada dia resignadamente. Nosso nome estará lá porque quisemos superar as dores. Não porque rezamos em favor dos que sofrem, mas porque fizemos de nossa vida uma luta constante para que as pessoas não sofram mais. Nosso nome não apareceu no céu de forma milagrosa, mas porque fizemos algo para que os “pequeninos” deixem de ser vítimas de outras pessoas, não passem fome, frio, ou fiquem desalojados… Nosso nome não está escrito no céu apenas porque ficamos tantas e tantas horas rezando e fazendo novenas ou recitando o terço, mas porque motivados pela nossa oração fizemos de nossa vida uma luta constante por uma sociedade sem as desigualdades intransponíveis representadas pelo abismo que separa: de um lado aqueles que concentram o poder e dinheiro e do outro lado os excluídos; de um lado aqueles poucos em cujas mãos se concentram os bens e as riquezas auferidos às custas das multidões que estão do outro lado do abismo e que de seu só têm o trabalho que gera riquezas para outros... Nosso nome está sendo escrito no céu na mesma medida em que nossas orações se converterem em ações em favor de quem precisa.

É assim que o Senhor anotará nossos nomes no céu. Lembremo-nos de que numa outra situação, o mesmo Senhor e mestre ensinou que não é só dizer Senhor, Senhor…! É assim que o Senhor que enviou os setenta e dois discípulos em missão de paz, de cura, de anúncio do Reino, nos escolhe. E será com essas ações que nosso nome será escrito no céu.




Neri de Paula Carneiro.

Mestre em educação, filósofo, teólogo, historiador

Outros escritos do autor:

Filosofia, História, Religião: https://www.webartigos.com/index.php/autores/npcarneiro;

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quinta-feira, junho 26, 2025

Pedro e Paulo: Tu és o Messias!

Reflexões baseadas em:
Atos dos Apóstolos 12,1-11; 2Timóteo 4,6-8.17-18; Mateus 16,13-19




O que celebramos na solenidade de São Pedro e São Paulo?

Com certeza você dirá que celebramos os dois santos. Mas note que a pergunta esconde uma “pegadinha”!

Os apóstolos Pedro e Paulo são o motivo da celebração. E nós, motivados pelos dois personagens, somos convidados a celebrar o significado de sua ação. Então o que celebramos?

A resposta está no que nos mostram as leituras que Igreja nos propõe. E começa mostrando-nos em Atos do Apóstolos (At 12,1-11). O que vemos aqui?

Vemos a atuação de Pedro, vítima das intrigas dos judeus e de das maquinações de um rei interesseiro e avesso ao povo. Vemos que os poderes constituídos tentam se sobrepor aos interesses do Reino e, para chegar a isso, perseguem aqueles que levam a sério o convite de Jesus, como o fez Pedro. Vemos que a Igreja se une em oração, em favor dos que sofrem, mas que a libertação ocorre quando a vítima se levanta e se põe a caminhar. Vemos isso em Pedro, convidado a sair: seguiu com o anjo sem esperar ser carregado. Vemos, portanto, que Pedro assumiu a caminhada de libertação.

Por fim, Pedro só se deu conta de que o anjo o protegia e guiava quando já tinha feito a caminhada. Só quando já estava livre foi capaz de reconhecer a ação de Deus. Só depois de ter feito a caminhada libertadora foi que se deu conta e percebeu que o “Senhor enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava!” Quer dizer: a libertação é dom e graça de Deus, mas quem a realiza somos nós, com o apoio da oração da Igreja. Deus não age por nós; nós é que temos que agir amparados pela oração e pela graça Libertadora.

Na carta de Paulo a Timóteo (2Tm 4,6-8.17-18) o apóstolo mostra ao discípulo como se deve encarar as consequências da opção por Jesus Cristo.

Paulo, um judeu convertido, apaixonado por Jesus Cristo, missionário valoroso e fervoroso, organizador e orientador de comunidades, profundo conhecedor das tradições e dos preceitos do judaísmo, entendeu que a Antiga Aliança findara na atuação de Jesus de Nazaré. E, portanto, as profecias cumpriram-se no jovem galileu. Não havia mais por quê esperar. Tudo estava consumado em Jesus de Nazaré, o Cristo. Por ele e em seu nome, Paulo entendeu que não podia mais esperar e lançou-se na caminhada: comprometeu-se de corpo e alma com a proposta do Reino anunciado por Jesus. Em consequência disso, da mesma forma que ocorrera com Pedro, Paulo também foi perseguido e feito prisioneiro.

Então, novamente, o que celebramos na solenidade de São Pedro e São Paulo?

Ouçamos o que o Espírito nos diz através das leituras. Qual é a cena, em Atos?

Pedro, prisioneiro, é libertado. Mas, antes disso, por que foi aprisionado? Porque o rei, numa estratégia nefasta de sua política interesseira, preferiu uma aparente estabilidade em seu governo. E para isso decidiu agradar um grupinho de religiosos fanáticos. Eis o que lemos em At 4,1-3: “O rei Herodes prendeu alguns membros da Igreja, para torturá-los. Mandou matar à espada Tiago, irmão de João. E, vendo que isso agradava aos judeus, mandou também prender a Pedro. Eram os dias dos Pães ázimos”.

O que isso nos mostra? Um monarca interesseiro querendo agradar e se beneficiar com o apoio de um grupo de fanáticos. Uma parceria que levou Jesus à morte e, depois de um ano do seu assassinato, se volta contra os amigos de Jesus. Pedro e Paulo, prisioneiros e martirizados são a prova disso: o fanatismo religioso e descomprometido com a realidade sofrida do povo aliada a políticos inescrupulosos gera, invariavelmente, perseguições aos que se dedicam à árdua tarefa delegada por Jesus. Que tarefa é essa? fazer ao pequenino o que se gostaria de fazer ao próprio Jesus, para depois ouvi-lo dizer: “Foi a mim que fizestes!”.

Então, o que celebramos na solenidade de São Pedro e São Paulo?

Se bem entendermos os passos dos apóstolos, podemos dizer que ao celebrar São Pedro e São Paulo estamos celebrando, ao mesmo tempo: a atitude de Pedro que se caracteriza pelo ato de por-se a caminho no processo da construção da liberdade. Sabendo que Deus indica o caminho, mas cabe a cada um, em comunidade, fazer a caminhada. A atitude de Paulo, disposto a caminhar na certeza de estar: ajudando na dinâmica do anúncio com suas cartas e sua pregação; contribuindo para que a proposta de Jesus de Nazaré fosse amplamente conhecida, viajando e anunciando; contribuindo para que a Igreja não morresse no isolamento mesquinho do judaísmo rigorista; construindo o caminho para que o cristianismo se universalizasse… Ambos fizeram isso e muito mais sabendo que o preço era a perseguição e o martírio. Ambos realizaram a obra do Senhor com a certeza expressa por Paulo: “O Senhor me libertará de todo mal e me salvará para o seu Reino celeste. A ele a glória, pelos séculos dos séculos!” (2Tm 4,18).

No dia de São Pedro e São Paulo celebramos o mandato divino pelo qual Pedro é enviado a guardar a Igreja para uni-la ao céu, sabendo que a promessa é do próprio Senhor: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16,19). Com essa certeza é que Paulo afirma, na sua caminhada final: “Aproxima-se o momento de minha partida. Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. Agora está reservada para mim a coroa da justiça” (2Tm 4,6-8).

E se isso celebramos no dia de São Pedro e São Paulo é porque ambos nos ensinaram a reconhecer o Senhor: “Tu és o Messias!”




Neri de Paula Carneiro.

Mestre em educação, filósofo, teólogo, historiador

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quarta-feira, junho 18, 2025

Corpo e Sangue do Senhor – Cinco pães e uma multidão

Reflexão baseada em:

Gn 14,18-20; 1Cor 11,23-26; Lc 9,11b-17



Deus pode fazer milagres? Com certeza, afinal de contas, é Deus. É todo poderoso. É Senhor da vida e criador de tudo. Deus pode fazer milagres, quando e onde quiser…

Mas será que Deus quer fazer aquilo que ele nos encarregou de fazer?

Como assim? você pode perguntar. Não estou entendendo! você pode argumentar.

Reflitamos um pouco.

Por qual motivo existimos num mundo maravilhosamente perfeito e com potencialidade para que façamos e produzamos tudo? Já desenvolvemos ciência e tecnologia que nos permitem a produção daquilo que precisamos para sobreviver. Ainda tropeçamos em algumas coisas, mas nosso esforço, conjugado com o esforço de outros, nos permite edificar maravilhas no mundo maravilhoso que recebemos como presente de Deus. E foi Deus que nos deu essa capacidade para crescer. Portanto, existimos para continuar a obra de Deus e realizar aquilo para o quê somos criados.

Com isso estou dizendo que, em relação ao nosso potencial, que é dom divino, já recebemos o MILAGRE: a inteligência e todas as demais condições para o crescimento.

Com isso estou dizendo que, em relação àquilo que nós podemos fazer, Deus não vai agir, pois já nos fez capazes de realizar.

Com isso estou dizendo que, com certeza, Deus nos vai ajudar naquilo que foge ou que vai além da nossa capacidade. E isso sem a menor dúvida! Pode ter certeza, ele age em nós!

Por que estou dizendo isso? Pare melhor celebrar o dia do Preciosíssimo Corpo e Sangue de Cristo. Ou seja, o dia que celebramos a presença real, plena e verdadeira de Cristo no pão e no vinho consagrados e transubstanciados, deixando de ter apenas a substância de pão e vinho para conter a essência divina. Já não comemos o pão e nem tomamos o vinho, comungamos o corpo e o sangue do Senhor que foi morto e está vivo. O milagre de retomar a vida é confirmado com o milagre da transubstanciação. Isso é milagre! Isso é dom de Deus! Isso é objeto de nossa fé! Isso cremos e convidamos os outros a crer também!

Toda essa conversa só para dizer isso?

Não, isso ainda faz parte do argumento! Do argumento para afirmar que Deus não faz milagres em relação àquilo que nós podemos fazer. Se eu posso fazer, a ação de Deus será fortalecer-me para que eu realize o que tem que ser feito.

Mas que tem isso a ver com a celebração do Corpo e Sangue do Senhor? você pode perguntar.

Em resposta, te pergunto o que lemos, nas leituras que a Igreja nos oferece para esta celebração?

Em Gn 14,18-20 encontramos Abraão sendo abençoado e com a benção do “Deus Altíssimo” foi capaz de produzir e, em resposta e gratidão pela capacidade de produzir, Abraão entregou “o dízimo de tudo”. Ou seja, Abraão não buscou milagres, assumiu sua capacidade, produziu e, agradecido, entregou o dízimo.

Algo semelhante vamos ver nas palavras de Paulo, falando com a comunidade de Corinto (1Cor 11,23-26). Aqui o apóstolo mostra o milagre. E para realizar isso Jesus não precisou da ajuda de ninguém, pois o fez em nosso favor. Sendo Deus com o Pai e o Espírito, ofereceu o dom de si mesmo. Sobre o pão disse: “isto é meu corpo”, sobre o vinho disse ser “a nova aliança em meu nome”. Esse é o compromisso de Deus: alimentar para a vida. Alimentar para aguardar seu retorno. E já não se trata mais de qualquer pão, mas é o pão da esperança, da memória, da presença, da certeza… da proclamação da “morte do Senhor, até que ele venha”.

Este é o pão eucarístico, em agradecimento. Realizado como dom de Deus. O pão produzido pelo ser humano, agora é pão do céu. Sobre a obra humana, pão e vinho, “frutos da terra e do trabalho do homem”, acontece a ação de Deus pela qual nos oferece seu corpo.

Um corpo que, pela sua singeleza não demonstra aquilo que é: Corpo e Sangue do Senhor. Oferecidos não por nossos méritos, mas por graça e dom da vontade de Deus.

Neste ponto você me pergunta: mas afinal o que você quis dizer quando indagou: será que Deus quer fazer aquilo que ele nos encarregou de fazer?

A resposta vem do próprio Jesus. Não estou inventando. Apenas entendendo as palavras de Jesus que, de acordo com Lucas 9,11b-17, “acolheu as multidões, falava-lhes sobre o Reino de Deus e curava todos os que precisavam”. Um Jesus que atende e entende a preocupação dos apóstolos, preocupados com a multidão que, seguramente, está com fome “num lugar deserto”.

Jesus diz: por que eu teria que fazer aquilo que é a função de vocês? Vocês podem fazer isso: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Eles não se recusaram, apenas não entenderam o potencial que ali havia. É então que Jesus orienta: que todos se organizem.

E assim, diante do povo organizado Jesus completou a lição: eu faço a oração e vocês fazem a partilha! Todos saíram satisfeitos e ainda sobrou comida para alimentar muita gente. Todos entenderam que para alimentar a multidão, não precisa de milagre. Todos entenderam é necessário, apenas, que haja partilha. Havendo partilha, aquele que tem com sobra reparte com quem não tem… e sobra alimento.

Para isso não precisa de milagre, é necessário apenas que haja conversão, pois o milagre foi Jesus se dar como pão e vinho. Dar alimento é tarefa nossa.

Neri de Paula Carneiro.

Mestre em educação, filósofo, teólogo, historiador

Outros escritos do autor:

Filosofia, História, Religião: https://www.webartigos.com/index.php/autores/npcarneiro;

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A QUARESMA

Pode parecer estranho, mas todos os anos a Igreja nos convida a repetir as celebrações quaresmais. Embora por caminhos distintos, a mesma jo...