23.9.26

RONDÔNIA, UMA VÍRGULA

Guarupi, sentado em seu galho predileto, conversa com a Mula Sem Cabeça.

F alavam sobre o mundão das amazônias, que vai além da região amazônica e de todas a amazônias imaginadas.

E enquanto conversavam Guarupi mostrou à Mula Sem Cabeça que neste mundo das amazônias, nestes dias que é o tempo que estamos vivendo, tem um cantinho que parece algo como se fosse uma vírgula. Ela foi ver e viu que é.

- Viu só?

- Não é que é!

Nesse momento chegou o Condor Andino, voando majestoso.

Chegou voando, pegou a conversa meio que pela metade e ficou assim meio que sem entender o que eles estavam falando.

Com a paciência de um deus das amazônias, Guarupi explicou:

- É simples, amigo Condor. Assente-se aqui e te explico tudinho. Pega o mapa do Brasil e veja Rondônia, dentro dele.

- Continuo não entendendo, Guarupi!

- Então vamos começar bem no começo.

E o deus das amazônias, que havia se levantado para acolher o Condor, sentou-se novamente sobre seu galho preferido, no alto da castanheira, ao lado do Condor ali pousado.

- Tudo começou lá bem no começo, quando começou a chegar aquela gente estranha com pelo na cara e com duas camadas de pele. Uma que eles tiravam para lavar ou para fazer algumas coisas e outra pele lisa, sem pelo, esbranquiçada, parecendo o couro do boto branco.

Guarupi continua:

- Você deve se lembrar bem disso!

- Sim. Uns diziam para os outros que este nosso mundo que não pertence a ninguém era deles. E, de fato, eles queriam dividir o que não lhes pertencia, o nosso mundo, que sempre foi inteiro. Para se entenderem e entenderem a divisão que estavam fazendo, fizeram o mapa.

A Mula Sem Cabeça, completou:

- Exatamente, essa coisa estranha, o mapa. Não é tudo um só mundo? Por que é que eles querem desenhar tudo num pedaço de papel riscando um pedaço pra cá, outro pra lá, como se o mundo fosse feito de pedaços.

- É disso que estou falando. E eu estava mostrando para a Mula que um dos pedaços parece uma vírgula.

E o deus das amazônias mostrou o mapa atualizado.

Um mapa mostrando o Brasil e dentro dele mostrou Rondônia.

E o pequeno deus explicou tudo ao Condor que conhece todas as curvas de cada rio e sabe que todos chegam ao mar das amazônias, o rio-mar que bebe água de todos os rios desde as altas cordilheiras até os pequenos igarapés numa rede capilar de um infinito de águas, vicejando o mundo verde-amazônico. Um tanto de rios e igarapés que até parece uma peruca de águas correndo para refrescar o cocuruto do Brasil do norte.

E o pequeno deus continuou.

- Você que vive lá das cordilheiras, sabe como é o nosso mundo. Mas os seres de duas peles de cara peluda e couro parecendo o boto branco, chegaram dizendo que os reis de onde eles vieram fizeram um acordo, lá num cantinho de terra, chamado de Tordesilhas. No tempo deles era 1494. Eles combinaram quem podia dizer quem era o dono de qual pedaço do grande mar salgado. E daquilo que existisse além do mar.

- Certo, Guarupi, mas você está lembrado! Eles não ficaram só nisso. Estavam brigando por causa da divisão e achando que o acordo que tinham feito não estava certo. Diziam que o primeiro acordo tinha que ser desfeito para ser refeito.

- Exatamente, condor.

- Por isso, eles se reuniram noutro canto do mundo deles, chamado Madri. Fizeram isso, também no tempo deles que era 1750. Para que se reuniram? Para fazer outro acordo, um novo mapa. Sempre para dizer quem era dono de qual pedaço do nosso mundo. É que uns diziam para os outros que os outros estavam invadindo o que era deles e que isso estava errado de acordo com o acordo de antes.

Nesse ponto a Mula Sem Cabeça lembrou:

- Não vamos nos esquecer que já se tinham passado mais de 250 anos, do primeiro acordo. Eles ainda mal conheciam nosso mundo. Já exploravam tudo por aqui, mas ainda estava ligados e dependiam do seu mundo que estava do outro lado do grande mar salgado.

E o Condor, completou o comentário do Mula:

- O problema é que eles trouxeram para nosso mundo as brigas que alimentavam entre eles. E queriam dominar nosso mundo, como dominavam o mundo deles. E, para isso, exploravam nosso mundo, explorando os povos de pele escura do mundo dos leões e elefantes.

Guarupi retomou a palavra, dizendo que foi por esse motivo que começaram a desenhar a vírgula, bem no meio da barriga da grande amazônia. E falou:

- Eles queriam conhecer nosso mundo e saber o que existia por aqui. Começaram a desenhar a vírgula. Quem fez isso? Os barbudos que dominaram as terras dos guaranis.

- Deram trabalho para a Mãe d’água e para o Curupira nos rios e florestas por onde passaram. Primeiro lá pelas terras do sul, perto do Grande Mar Salgado. Depois vieram para nosso mundo – Completou o Condor

A Mula sem Cabeça comentou:

- De fato, a Mãe D’água e o Curupira tiveram muito trabalho, protegendo a floresta e os rios. Galopando pelas brenhas, de vez em quando sentia cheiro de coisa morta. Eram alguns deles que morriam e ficavam virando adubo para as raízes das matas. Eles subiram pelos rios e florestas e morriam porque não foram feitos para sobreviver em nosso mundo. Eles eram fracos e estavam deslocados na floresta com aquelas roupas esquisitas.

O condor completou:

- O curupira me falou daquele grupo. Mais de mil, vindos das terras do sul. Chegaram até perto da grande Cordilheira. Sofreram os horrores de quem não conhece a vida das florestas. Por isso, foram morrendo pelas picadas e rios e ficando por aí. Só algumas dezenas chegaram ao rio das madeiras boiando que eles passaram a chamar de Rio Madeira.

O condor fez uma parada em sua narrativa e a Mula sem Cabeça continuou:

- Num outro dia estava conversando com a Mãe d’Água e ela estava recordando isso. No tempo deles, saíram em 1648 e retornaram em 1651. Viajaram por 3 anos e só uns poucos sobraram dessa aventura. Tudo porque queriam encontrar pedrinhas brilhantes. Acharam algumas, mas ficou muito caro para eles, pois morreram quase todos.

Guarupi continuou seu raciocínio, sobre o mapa.

- Com isso acrescentaram alguns traços no mapa do nosso mundo. Viajando pelos rios Guaporé e Mamoré até o rio das madeiras boiando e chegaram ao mar amazônico e desceram mais e entraram no grande mar salgado.

Ouvindo esse comentário, a Mula sem Cabeça, solta um longo suspiro de dor, lamentando as mortes dos que ficaram pedidos e esquecidos na história.

Nesse momento, por causa do calor escaldante, o condor balançou as asas para puxar uma nuvem que vagava por perto. A nuvem veio e despejou chuva sobre eles.

A Mula sem cabeça balançou as orelhas. Agradeceu ao Condor pela chuva refrescante. Guarupi continuou:

- Tudo isso ajudou a desenhar a virgula. Eles continuaram querendo saber quem mandava em nosso mundo, como se nós não existíssemos. Continuaram se desentendendo e brigando. Decidiram fazer outros acordos, para evitar uma guerra entre eles. Um dos acordos recebeu o nome de Santo Ildefonso, em 1777.

O Condor comentou:

- Você está vendo, Guarupi, alguns ainda dizem que estou falando com ironia, mas tudo isso só mostra os limites dos conhecimentos deles a respeito do nosso mundo. O acordo de Santo Ildefonso foi feito para corrigir o que estava em desacordo naquilo que tinham estabelecido no acordo de Madri.

Com um gesto de cabeça, o pequeno deus continuou, sua narrativa:

- Exatamente. Porém passaram-se mais alguns anos e as dúvidas deles permaneciam. Fizeram mais um acordo e com isso completaram a vírgula, usando os rios Guaporé e Mamoré para demarcar as fronteiras. Em 1867 completaram a vírgula, escrevendo mais acordos em Ayacucho.

Balançando as orelhas, a Mula sem Cabeça, completou:

- Não esqueça de Petrópolis. A vírgula só ficou definitivamente pronta em 1903, quando resolveram a pendência em relação ao Acre… mas aí já é outra conversa que a Mãe D’água gosta de contar. Ela acompanhou essa história bem de perto.

- Agora entendi, Guarupi. Como não percebi antes? Mas é que, voando pelas amazônias, vejo tudo como um só mundo verde interligado pelos rios. É o nosso mundo como sempre foi. Não o vejo como os estranhos cara peluda desenharam no mapa…

- Pois é Condor. Esse é um dos defeitos do povo de pelo na cara e couro branco. Mas não tem como negar, seguindo os riscos que eles fizeram no mapa, dá para ver a virgula.

O pequeno deus, parou. Respirou. E continuou:

- Vai haver muitos que não entendem que os mapas são uma forma de desenhar o domínio. E aqui serve para mostrar que Rondônia é uma virgula, coisa que os povos de pele de boto branco criaram para denominar e dominar e se apropriar do nosso mundo.

Novamente balançando as orelhas para espantar uma mosca, a Mula sem Cabeça interrompe a fala do pequeno deus:

- Mas Guarupi, eles só vão entender que o mapa de Rondônia parece uma virgula se eles virarem o mapa de cabeça para baixo.

- E não é isso que estou dizendo? Rondônia é uma virgula de cabeça para baixo, lá no mapa. Mas se o mapa for colocado ao contrário, ficar de cabeça pra baixo, Rondônia vira uma virgula correta. Por isso é que a gente estava dizendo que Rondônia é uma vírgula. Uma vírgula que eles foram desenhando no mapa enquanto foram se instalando em nosso mundo.




Neri de Paula Carneiro

8.9.26

SETE DE SETEMBRO

Mapa do Brasil - Geografia Enem | Educa Mais Brasil 

Oito de setembro, se te falo,

bem me lembro, não é dia de festa.

Que país é este?

Que fazer, se te desafia,

depois do sete, o que resta?


Oito de setembro,

se te recordas o que é isto

verás pra onde vai,

depois do grito, se te inquieta,

a soberania de um país.


Oito de setembro, se te acomodas

eu falo: Não é o grito que conta!

Se te abalas, insisto, olha

o trabalho bonito

de quem afirma o Brasil.


O que vem depois do sete?

O povo quer ser nação,

ou segue a onda que segue

triturando a multidão?

 

Neri de Paula Carneiro

20.8.26

Devoção à Rainha

“Eis ai tua mãe!” Isso foi o que falou Jesus a João, na cruz, num triângulo de doação: Jesus entregou a vida em nossa defesa; Maria entregou a vida gerando o autor da vida e fez-se seguidora do Filho; João entregou-se ao serviço do mestre, perenizou seu ensinamento. Porém, até aqui, temos o Filho com sua mãe e seu discípulo amado. Onde está a Rainha?

É inegável a devoção à mãe do Senhor. Desde a saudação de Isabel “Como posso merecer que a mãe do meu Senhor venha me visitar?” (Lc 1,43). Até o alerta de Simeão “Quanto a você, uma espada há de atravessar-lhe a alma.” (Lc2,35). Desde os garçons lamentando a falta de vinho e Maria, mulher atenta às necessidades das pessoas, intercedendo em favor do noivo: “Eles não têm mais vinho!” (Jo 2,3). Até o altar supremo da cruz quando, fiel companheira é consolada pelo Filho suspenso: “Jesus viu a mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava. Então disse à mãe: “Mulher, eis aí o seu filho.” (Jo 19,26). Seguindo os passos de Jesus de Nazaré, está a mãe. Onde está a Rainha?

Podemos supor que a mãe estivesse encorajando os discípulos assustados, quando Jesus vem trazer a paz: “Ficou no meio deles e disse: ‘A paz esteja com vocês’.” (Jo 20,19). Podemos supor que a mãe era uma das mulheres que o serviam: “Grande número de mulheres estavam aí, olhando de longe. Elas haviam acompanhado Jesus desde a Galileia, prestando-lhe serviços” (Mt 27,55). Mas onde está a Rainha?

Na comunidade de Jerusalém, encontramos a mãe: “Todos eles tinham os mesmos sentimentos e eram assíduos na oração, junto com algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos de Jesus”. (At 1,14). A mãe e os discípulos ficaram cheios do Espírito Santo, pois: “estavam reunidos no mesmo lugar”. O livro de Atos continua: “Apareceram então umas como línguas de fogo, que se espalharam e foram pousar sobre cada um deles. Todos ficaram repletos do Espírito Santo” (At 2,1-4a). Porém, onde está a Rainha!

O que tudo isso nos ensina: os evangelistas e os Atos dos Apóstolos nos apresentam a mãe de Jesus. Ela está junto, anima a comunidade, fala sobre Jesus… ela é a Mãe do Bom Conselho!

E qual é o conselho de Maria? João quem responde: ela aconselha a fazer o que ele ensina, ou seja “A mãe de Jesus disse aos que estavam servindo: ‘Façam o que ele mandar’.” (Jo 2,5).

E o que Jesus manda? A resposta nos vem de Mateus, afirmando as palavras do mestre: fazer discípulos, batizar “ensinando-os a observar tudo o que ordenei a vocês” (Mt 28,20).

E o que Jesus ordenou e ensinou?

Vamos perguntar a Marcos que nos informa: “Jesus voltou para a Galileia, pregando a Boa Notícia de Deus: ‘O tempo já se cumpriu e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e acreditem na Boa Notícia’.” (Mc 1,14-15). Portanto, Jesus anuncia o Reino… que não é deste mundo. Começa aqui com base na verdade. “O meu reino não é deste mundo”. E explica: “Eu nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade. Aquele que está com a verdade ouve a minha voz’.” (Jo 19,36-37).

Aqui está o ponto de partida para reconhecermos Maria, a Mãe, como Rainha. É uma exigência lógica: se o filho é o rei da Verdade, Amor e Paz, a mãe é a Rainha da Paz.

O autor do Apocalipse apresenta uma mulher vestida de sol com uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça: “Apareceu no céu um grande sinal: uma Mulher vestida com o sol, tendo a lua debaixo dos pés, e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas.” (Ap 12,1).

O Apocalipse é um livro que deve ser lido com os olhos da esperança, portanto olhemos com atenção esperançosa os símbolos, desta visão.

A mulher pode ser identificada com a Igreja e com Maria. E Maria está vestida de sol, porque não há outro que pode iluminar a não ser Jesus. Ele é o nosso sol, a luz que nos guia. Só ele é o sentido da existência, da Igreja, da fé e de sua própria mãe. Sem Jesus, Maria seria apenas uma entre tantas mulheres virtuosas do seu tempo. A grandeza de Maria não está nela, está no fato de ser mãe do Jesus nosso sol, luz do mundo.

Por que ela está pisando sobre a lua? Porque a lua representa o mundo. Não tem luz própria. Depende da Luz de Deus, de Jesus, luz do mundo (Jo 1,1-14). Ele é o sol que veste a mulher.

O que ela tem na cabeça? Uma coroa. A Mulher é a rainha. O que tem na coroa da Rainha? Doze estrelas. O que são as estrelas? Os apóstolos. Por ser mãe de Jesus, o rei e o sol, Maria é rainha das estrelas, os apóstolos, a Igreja.

Então a quê nos remete a cena do Apocalipse 12,1? A Jesus que é o Rei, o sol que envolve a tudo. E à Mãe, que é a Rainha com uma coroa de doze estrelas, os doze apóstolos.

Portanto, aqui está a base teológica para a devoção à Maria, Nossa Senhora Rainha.

E, como a coroa sugere, Rainha dos Apóstolos. A mesma Mãe que esteve no cenáculo e recebeu o Espírito, agora aparece envolta na luz do Filho. O mesmo Espírito que a envolveu no momento da concepção: “O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo a cobrirá com sua sombra” (Lc 1,35), agora a apresenta envolvida na Luz do seu Filho, guiando os apóstolos, pois eles são as estrelas em sua coroa de glória.

Plena de Luz. Plena do Espírito. Plena de Jesus, Maria é plena atenção aos apóstolos. Permanece com eles, superando o medo das perseguições. A fé popular e o ensinamento dos Santos Padres expressam a mesma certeza. Certeza que alimenta a devoção mariana ao longo dos vinte e um séculos de cristianismo: Maria, a mãe de Jesus, goza da dignidade de Rainha!

Essa fé nos leva a saudarmos a mãe, ao recitarmos: “Salve Rainha, Mãe de Misericórdia…”. Além disso, na ladainha, a invocamos doze vezes como Rainha. A Mãe Maria é Rainha: dos Anjos, dos Patriarcas, dos Profetas, dos Apóstolos, dos Mártires, dos Confessores da fé, das Virgens, de todos os Santos, Concebida sem pecado original, Assunta ao céu, do santo Rosário e, principalmente, Rainha da paz. Além disso, quem recita o rosário oferece uma coroa de 150 rosas (150 ave-marias) e, no quinto mistério glorioso, a contempla sendo coroada no céu.

Ao longo dos séculos, o povo, na sabedoria de sua fé, definiu os diferentes títulos com os quais quis venerar à Mãe de Jesus. Esse apelo se tornou tão expressivo que em 1954 o papa Pio XII fixou o dia 31 de maio como a data litúrgica para a celebração da Mãe Rainha.

E isso ocorreu como coroação do ano mariano que então se celebrava, comemorando os cem anos do dogma da Imaculada Conceição de Nossa Senhora, proclamado por Pio IX no dia 8 de dezembro de 1854, por meio da bula Ineffabilis Deus. Assim, Pio XII coroava o ano mariano e o mês de maio definindo uma data festiva para celebrar a devoção popular que reconhece em Maria a Rainha.

Com isso, algumas das festas marianas ficaram interligadas. Começando com a Imaculada Conceição (definida por Pio IX, 8/12/1854), é a solenidade em que a Igreja afirma que Maria foi isenta do pecado.

Após sua ressurreição Jesus chamou a Mãe para a morada eterna. É a solenidade da Assunção de Nossa Senhora, celebrada dia 15 de agosto, conforme fixado por Pio XII na constituição apostólica Munificentissimus Deus (1/11/1950).

Quase como extensão da Assunção, celebramos a memória da realeza mariana: Nossa Senhora Rainha. Esse reconhecimento foi feito pelo mesmo Pio XII por meio da encíclica Ad Caeli Reginan. Nessa encíclica, além de declarar a realeza mariana, convida à veneração de Maria Rainha para que a Senhora conceda a Paz ao mundo ainda assustado com as duas grandes guerras. Daí o título de Nossa Senhora Rainha da Paz.

Com a reforma litúrgica do Vaticano II, os bispos conciliares acharam melhor transferir a data litúrgica para o dia 22 de agosto. Exatamente oito dias após a celebração da solene Assunção de Nossa Senhora.

Dessa forma temos algumas das principais celebrações marianas: Imaculada Conceição, 8 de dezembro. Assunção de Nossa Senhora, 15 de agosto. E o reconhecimento da realeza mariana, no dia 22 de agosto, como uma espécie conclusão da Assunção.

Resta uma indagação: Como estender essa perspectiva histórica e teológica para a ação pastoral?

Podemos fazer isso a partir de dois pontos.

Primeiro relendo Ex 3,7-10 em perspectiva mariana. Deus viu, ouviu e desceu para libertar seu povo e enviou Moisés; no tempo oportuno veio até Maria e a enviou primeiro como mãe, depois como discípula e por fim como rainha. Uma rainha que não está aí para reinar de forma absoluta, como fazem os donos do nosso mundo, mas como modelo de mulher servidora. Ela abre mão de sua vida para dar vida ao Filho que dá vida ao mundo.

Depois olhando a atitude de Ester, intercedendo em favor de seu povo: “Se o senhor quiser fazer-me um favor, se lhe parecer bem, o meu pedido é que me conceda a vida, e o meu desejo é a vida do meu povo” (Es 7,3-4). A rainha Ester mostra a quê se dedica a rainha: defender a vida e a liberdade.

Maria, “mãe de Misericórdia”, é invocada como “advogada”, quando recitamos a “Salve Rainha”. Ela é nossa advogada não só para livrar das dores do dia a dia, mas também para iluminar os caminhos da transformação social uma vez que ela, livre do pecado, quer pela graça de seu Filho, libertar a humanidade dos pecados sociais: da violência, da segregação, da exclusão, da fome, da ambição, da ganância… para que não haja opressores nem oprimidos mas um reino de amor, respeito e solidariedade.

Cumprindo o que Maria, a Mãe conselheira e rainha dos Apóstolos, recomendou “fazei tudo o que ele vos disser” seremos livres dos pecados pessoais e sociais. É o apelo de Nossa Senhora a Rainha, a quem pedimos ajuda, “para que sejamos dignos das promessas de Cristo”.





Neri de Paula Carneiro

7.8.26

NO VELÓRIO

Foi meu primo quem me contou.

Ele jura que é verdade, que viu com os próprios olhos, que aconteceu bem do ladinho dele …

A mulher do prefeito, de uma cidade vizinha, veio para o velório. O velório também era lá, nessa cidade!

E tinha bastante gente pois a morte é a situação da vida que mais atrai gente: gente amiga, gente curiosa… e gente que quer ter certeza que o traste morreu mesmo!

Todos sentados, cada um chorando do seu jeito. Cada um falando as próprias opiniões a respeito do defunto, "pessoa tão boa!" - diziam, meio que por obrigação.

Você já deve ter visto isso que acontece e visto como é engraçado: o defunto pode ser um traste, mas vira uma excelente pessoa depois que morre: “Pena que morreu tão jovem. Tão bom que era!”

Do lado do meu primo, que era conhecido do defunto, que havia virado gente boa (bem, é isso o que acontece! Também não sei se não era.)… do lado do meu primo estava a mulher do presidente da câmara municipal.

Ela também era antiga conhecida do defunto. Ela também era colega do meu primo. Eles haviam feito faculdade juntos, e essas coisas... 

Os três … o defunto, meu primo e ela, que acabou casando com um qualquer… que virou presidente da Câmara, tempos depois quando todos já estavam estabelecidos na vida… no caso, o defunto, agora morto… os três continuavam mantendo a amizade antiga...

Mas essa é outra página da história que, se você me der um tempinho, conto depois!

Do lado que era o outro lado da mulher do presidente da Câmara, na cadeira vaga, sentou outra mulher. Chegou em silêncio e sentou-se. Permaneceu em silêncio, mas só por alguns segundos.

Não começou falando. Começou mexendo e remexendo naquela enorme bolsa.

O tamanho da bolsa era ostensivo. Só por ostentação, mesmo, pois, todo mundo sabia – no caso eu só fiquei sabendo porque meu primo contou – ela era assim mesmo, meio espalhafatosa.

Mexe que remexe na bolsa até que solta um suspiro de alívio e tira as mãos de dentro da bolsa. Na mão vem um celular. No celular devia haver algo muito importante, pois ela apertou o botãozinho – também isso quem me contou foi meu primo, eu não estava lá, nem vi nada disso! – e o aparelhinho fez um “bip!” e ela, ainda de forma espalhafatosa, começou a procurar algo.

Devia estar procurando algo na sua galeria de fotos, pois depois de mais alguns segundos interrompeu os gestos de passar os dedos na tela e esticou os olhos para algo que estava vendo na tela do aparelho.

Olhou mais uma vez e piscou os dois olhos, como quem está querendo ver com mais nitidez.

Depois de piscar e rever o que estava vendo, tocou o braço da amiga do meu primo, que era a mulher do presidente da câmara.

Ah! Antes que eu esqueça, a mulher espalhafatosa de bolsa ostensiva e de celular na mão era a mulher do prefeito.

E as duas eram não exatamente amigas, mas conviviam amigavelmente por conta da função dos respectivos maridos… mas isso também faz parta de outra página da história … que conto outro dia, caso você queira saber os detalhes …

Pois antão, depois de se certificar de que era aquilo mesmo que estava buscando em sua galeria, a mulher do prefeito, que não era amiga do meu primo, tocou o braço da mulher do presidente da câmara, que era amiga o meu primo, para mostrar algo, que meu primo não viu. Tocou novamente o braço da amiga e mostrou a tela do celular:

- Conhece? – perguntou para a mulher do vereador que era o presidente da câmara.

Antes que ela dissesse que sim ou que não, completou sua intenção, que era falar da outra pessoa que estava estampada na tela.

- Morreu!

Ainda sem dizer uma palavra, a amiga do meu primo se reposiciona na cadeira para ver melhor o que deveria ser uma foto de uma pessoa morta. E a outra continuou:

- Devem ter feito photoshop na foto. Ela não era bonita assim…

As duas se olharam. A mulher do prefeito para ver a reação da mulher do vereador e a mulher do presidente da câmara querendo entender as intenções da mulher do prefeito…

Meu primo não soube me dizer o que aconteceu na sequência do que poderia ser o início de um diálogo, pois chegou o padre pra jogar água benta na cara do defunto que já estava de saída.




Neri de Paula Carneiro


6.8.26

… DO FILHO

Pai,

poder e força, figura da fonte

vivificadora,

desde sempre até agora

em mim você é lembrado:

sou o filho de ti gerado.


Pai,

amor na forma de trabalho.

És presente

e discreto, no olhar sorridente.

Teu projeto é me ver crescer.

Teu orgulho é me ver vencer!


Pai,

isto que agora te digo, só diz

um pouquinho,

do que recebi com carinho,

da tua suada mão condutora

mostrando o rumo, a aurora.


Neri de Paula Carneiro

Qual pai?

Lembra daquela do Amado Batista:

“Ah! Como eu queria, voltar ao passado”?

E se eu voltasse, eu seria o eu do passado ou o eu atual? E se fosse o eu atual, não seria o eu do passado, mas eu no passado, portanto, descontextualizado.

E se eu voltasse, eu iria alterar o passado? Se alterasse, o eu atual não seria eu, mas outro, pois o que sou se deve ao que vivi ao longo dos anos. Isso me fez ser o que sou!

E se eu voltasse, que diria ao meu pai, diferentemente do que já disse? Que faria, além do que já fiz? E se dissesse ou fizesse, iria alterar nossa relação de pai para filho? Ou agora, eu no passado, levando-me como sou, manteríamos uma relação de pai para pai?

E se eu voltasse, poderia fazer hoje a mesma homenagem ao pai que deixei lá? Ele já se foi, mas se eu voltasse, qual o pai que encontraria, aquele com quem cresci ou este que vive em minha memória e me embala o coração?

E então, hoje, qual é o pai a quem faço homenagem? Faço homenagem ao pai que já não tenho, ou ao pai que vive em mim?

Ou, e isso é nefasto, faço homenagem ao meu pai porque é isso o que se faz ou porque é dia dos pais? Faço homenagem ao pai que tive ou àquele com quem convivo, na memória? Faço homenagem porque é meu pai ou porque é dia de homenagem?

Neri de Paula Carneiro


 

2.8.26

PAI

Pessoa especial, pai,
possuis o dom de amor.
Podes crer, és genial!

Amor, manifesto em gestos,
assim é que te admiro.
Abraços do teu rebento.

Imagem do criador,
isto emana de ti:
Imagem e exemplo e amor.

RONDÔNIA, UMA VÍRGULA

Guarupi, sentado em seu galho predileto, conversa com a Mula Sem Cabeça. F alavam sobre o mundão das amazônias, que vai além da região amaz...