quinta-feira, julho 03, 2025

Os nomes escritos no céu

Reflexões baseadas em: 
Is 66,10-14; Gl 6,14-18; Lc 10,1-12.17-20


 

Alegrai-vos e exultai!

Esse é o grito estimulante do profeta Isaías (Is 66,10-14), oferecendo alento ao seu povo. Mas o que levou o profeta a fazer esse convite?

Ele se dá conta de que “a mão do Senhor se manifestará em favor de seus servos” (Is 66,14).

Na realidade o profeta está falando aos seus concidadãos, no retorno do exílio. Por esse motivo ele refere-se a Jerusalém como o lugar em que se poderá celebrar a paz entre as nações. Esse será o ponto a partir do qual manifesta-se a fonte da paz: “Eis que farei correr para ela a paz como um rio e a glória das nações como torrente transbordante” (Is 66,12). Por isso é que a “mão do Senhor se manifestará”, pois havendo paz, a vida pode florescer.

Tudo isso em relação a Jerusalém e aos repatriados, povo merecedor da atenção do Senhor, pois, naquele momento, é um povo sofredor.

Porém o tempo passou. O povo é outro. A situação mudou… entretanto, a palavra de Deus continua sendo a mesma e atual!

Sendo assim, permanece a indagação: Por qual motivo os servos do Senhor devem extravasar sua alegria?

Agora, a resposta vai além do que disse o profeta. A fonte da paz já não é uma cidade, mas o novo povo. Um povo que também tem motivos para se alegrar e exultar…

Agora a responta nos vem não mais do profeta, mas nas palavras de Paulo (Gl 6,14-18).

Agora é o apóstolo de todas as gentes que apresenta um novo motivo; uma nova fonte de alegria pois os valores são outros. E, principalmente, há um novo povo!

O apóstolo nos informa e orienta ao dizer: nada tem mais valor do que estar com Cristo; o que conta é a nova criatura que nasce no seguimento de Jesus; o que conta é a paz e a misericórdia que se expandem a partir dos que se deixam conduzir pelo Senhor.

Esse ensinamento do apóstolo manifesta-se quando nos diz que “nem a circuncisão, nem a incircuncisão têm valor; o que conta é a criação nova.” (Gl 6,15). Isso porque a glória do ser humano é a “cruz do Senhor nosso, Jesus Cristo”. Nisso reside o sentido da caminhada, da peregrinação humana neste mundo mergulhado nas dores e problemas e dificuldades; em meio à competição desenfreada e desonesta, diante da exploração dos fortes sobre os fracos, dos espertalhões tirando proveito da simplicidade das pessoas de bem… É aí que o apóstolo aponta para um novo e definitivo sentido.

Ele mostra para que não haja dúvidas: o sentido da caminhada não está no caminho, nem no enaltecimento da dor, representada pela cruz, mas em seguir os passos de Jesus (Lc 10,1-12.17-20). E fala isso porque Jesus não parou na cruz! O sentido da peregrinação está na busca pela superação dos sofrimentos, pois ninguém nasceu para sofrer; o sentido está no entendimento de que a cruz não é o objetivo, ela é só um ponto de transição, uma ponte, uma chave, uma porta que se abre para o que vem depois. Por isso o apóstolo mostra o exemplo de Jesus, que não ficou na cruz. Ele a usou, mas não permaneceu nela. Por isso é que a cruz aponta para o que vem depois.

E o que é que vem depois? Vem depois do quê?

Sabendo que a cruz é o símbolo das dores, dos sofrimentos, das doenças, da fome, da miséria, da exploração, do egoísmo, da mentira… sabendo que na cruz estão representadas todas as mazelas humanas Paulo ensina que tudo isso foi superado pela ressurreição do Senhor. Portanto, depois da cruz vem a concretização das promessas de Jesus.

Depois da cruz está o mestre que acolhe os discípulos enviados em missão. Discípulos que voltam radiantes de alegria por terem feito maravilhas. E, mais uma vez, esse não é o objetivo, não é o ponto de chegada. Não é aí o ponto de encontro com o Senhor. Tudo isso é importante, porém o mestre explica que isso é só o começo: “Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem. Antes, ficai alegres porque vossos nomes estão escritos no céu” (Lc 10,20).

E aqui tem um detalhe importante: nossos nomes não estarão escritos no céu porque sofremos carregando nossas cruzes de cada dia resignadamente. Nosso nome estará lá porque quisemos superar as dores. Não porque rezamos em favor dos que sofrem, mas porque fizemos de nossa vida uma luta constante para que as pessoas não sofram mais. Nosso nome não apareceu no céu de forma milagrosa, mas porque fizemos algo para que os “pequeninos” deixem de ser vítimas de outras pessoas, não passem fome, frio, ou fiquem desalojados… Nosso nome não está escrito no céu apenas porque ficamos tantas e tantas horas rezando e fazendo novenas ou recitando o terço, mas porque motivados pela nossa oração fizemos de nossa vida uma luta constante por uma sociedade sem as desigualdades intransponíveis representadas pelo abismo que separa: de um lado aqueles que concentram o poder e dinheiro e do outro lado os excluídos; de um lado aqueles poucos em cujas mãos se concentram os bens e as riquezas auferidos às custas das multidões que estão do outro lado do abismo e que de seu só têm o trabalho que gera riquezas para outros... Nosso nome está sendo escrito no céu na mesma medida em que nossas orações se converterem em ações em favor de quem precisa.

É assim que o Senhor anotará nossos nomes no céu. Lembremo-nos de que numa outra situação, o mesmo Senhor e mestre ensinou que não é só dizer Senhor, Senhor…! É assim que o Senhor que enviou os setenta e dois discípulos em missão de paz, de cura, de anúncio do Reino, nos escolhe. E será com essas ações que nosso nome será escrito no céu.




Neri de Paula Carneiro.

Mestre em educação, filósofo, teólogo, historiador

Outros escritos do autor:

Filosofia, História, Religião: https://www.webartigos.com/index.php/autores/npcarneiro;

Literatura: https://www.recantodasletras.com.br/autores/neripcarneiro.


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