sexta-feira, março 06, 2026

AUSÊNCIA

Naquela página de um desses grupos de redes sociais todos estavam falando a respeito dos atributos, das belezas, das qualidades das mulheres.

Mas isso só porque era o dia da mulher!

O homem? O homem era aquele que escrevia, era aquele que admirava, aquele que lia… aquele que contemplava a mulher naquilo que sobre ela estava escrito.

E, para ser mais exato, o homem não estava presente naquela página dedicada à mulher, no dia da mulher.

Resolvi também escrever sobre ela, a mulher da minha lembrança...

Exitei e me indaguei: Escrever para quê?

Entendi que não deveria falar sobre a mulher, seus encantos, e até desencantos. Não falar sobre a alegria que tive ao tê-la comigo. Alegrei-me e me pus compartilhar momentos com a mulher que esteve em minha vida.

Escrevi, escrevi, escrevi… e não era só mais uma crônica. Era um conto. Um conto, não de amor, mas de algo que já sei ser indefinível.

E ao contar meu conto percebi que enquanto eu contava, no meu conto misturavam-se momentos e aspectos de minha vida que só sei recordar. Misturavam-se o que posso e o que não posso contar. Misturava-se ao conto, retalhos de vida… então deixei fluir e contei aquilo que podia.

E aquilo que escrevia ia me fazendo lembrar… e ao me lembrar ia me sentido ausente da presença daquela sobre quem eu contava, como quem quer cantar cantos de saudades.

Aquela presença, de outros tempos, já não estava mais ao meu lado. Já não era presença, mas ausência.

Quem era a mulher, a musa do meu conto?

Não, ela não está ao lado dessas tantas que são as mulheres que são desprezadas, que são abandonadas, que ficaram depois da partida, quando alguém, ao partir, parte uma vida para construir outra história.

Não. A mulher do meu conto ficou… ficou… presente em minhas lembranças.

Não. Ela não estava ao meu lado, pois está na lembrança.

E no meu conto, me perguntei onde estaria a mulher que estava ao meu lado, quando andávamos lado a lado? Aquela que era minha, sendo eu dela… aquela que podia ser a amada, por onde andaria?

Todos dizem que quando alguém se vai fica a lembrança. Muitos dizem que quando alguém se vai, vira uma estrela. Alguns dizem que quando alguém se vai deixa algo de si.

Eu olhei para o céu, buscando estrelas; vasculhei, procurando-a em minhas lembranças… só restaram lembranças.

Eu perguntei às minhas lembranças o que, daquela mulher, ficou? O que restou, depois da partida?

Eu me dei conta de que ela não é a estrelinha do céu. Dei-me conta de que ela não deixou nada de si. Dei-me conta de que em minhas lembranças, ela não está, pois são só lembranças. A presença é a lembrança.

Eu, só então, me dei conta de que quando alguém se vai, não deixa nada.

Eu me dei conta de que no lugar daquela mulher que se foi ficou só a ausência. Uma ausência povoada por lembranças, mas ela mesma é uma ausência. 



Neri de Paula Carneiro 
Mestre em educação, filósofo, teólogo, historiador

Outros escritos do autor:

Filosofia, História, Religiãohttps://www.webartigos.com/index.php/autores/npcarneiro;  

Literatura: https://www.recantodasletras.com.br/autores/neripcarneiro;

E.Books: https://www.calameo.com/accounts/7438195.

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