domingo, dezembro 21, 2025

TODO PROFESSOR



Todo professor pode encontrar um aluno, em qualquer lugar… mas nem sempre um aluno encontra um professor quado precisa…

Deixa-me explicar.

É que as pessoas ainda precisam aprender o que a humanidade já sabe e, para isso, depende daqueles que sabem ensinar e sabem o que ensinar. E essa pessoa é o professor!

Você ainda não está entendendo, não é mesmo?

Vou explicar melhor.

Era o final do meu último ano de teologia no final dos “anos oitenta, charrete que perdeu o condutor”.

Já de malas prontas, preparava-me para voltar ao meu estado, o Paraná. Organizava meus livros quando meu mestre manda-me mensagem, mais ou menos nestes termos: “Passe em minha sala, antes de partir”.

Não entendi o porquê, pois já tínhamos conversado bastante; ele já me havia passado várias orientações para minhas atividades; ele me havia falado da importância de escrever… porém, como não se nega a um chamado do mestre… de malas prontas, passei pela sua sala.

Como sempre, pela porta aberta podia-se vê-lo: debruçado sobre os livros. Invariavelmente, se não estava lecionando, estava em sua sala estudando e escrevendo. A cena dele estudando destacava-se no contraste com a luz que entrava pela janela, iluminando sua mesa, seus livros e sua inseparável Remington Rand, de cujo teclado se ouvia o tec-tec!

Naquela sala, além do meu professor e mestre biblista, vivia um milhão de milhões de livros, livres pelas estantes e sobre pilhas de outros livros. Dentro daquele ambiente a gente mal se podia mover sem dar de cara com uma montanha de livros sobre as cadeiras ou sobre uma outra pilha de livros de outros tantos livros.

Entrei e lá estava ele, sobre sua cadeira à frente de sua mesa. Datilografando alguma coisa.

“Sente-se, ali!”, indicou a cadeira estofada, onde já me sentara inúmeras vezes. Era o único móvel sobre o qual nunca havia livros. Se alguém fazia essa observação, de ser o único móvel onde não havia livros, ele respondia que não existe nada melhor do que sentar e conversar, olhando nos olhos dos amigos.

“Tu vais amanhã”. Seu tom era mais de afirmação que pergunta. “Sim, logo de manhãzinha”, respondi, já sentindo saudades das suas aulas sobre o mundo antigo.

À minha resposta ele respondeu levantando-se e, retirando de um armário à sua direita, entregou-me uma caixa retangular.

“Sei que tu gostas de escrever. Leio alguns dos teus escritos naquele jornal… Leve isto para continuar a se desenvolver. Lembra-te que na pregação escrita tu continuas falando, mesmo quando vais dormir”.

E assim nasceu minha amizade com aquela “Olivetti lettera 82”. Com ela mantive colunas em alguns jornais no Paraná e em Rondônia, a exemplo do que já fizera em Florianópolis, como estudante de teologia. Ainda hoje, em cada texto que publico, lembro da voz do mestre dizendo que a escrita continua nosso grito, quando já não estamos presente; ou que continuamos presente em nosso texto enquanto o texto existir, mesmo além e depois de nós.

Ao publicar meus escritos, lembro do mestre que me presenteou com uma máquina de escrever. Naquele momento ele me ensinou que os filósofos e teólogos de séculos, ou milênios, passados permanecem vivos porque seus textos chegaram a nós. E enquanto seus textos circularem entre nós, eles não morrerão.

Divorciei-me da velha Olivetti para iniciar um novo relacionamento, com um jovem muito versátil e com mais recursos: o computador. Mas guardo boas recordações daquele casamento com a Lettera 82, um amor que nasceu na sala do meu mestre.

Hoje, findando o primeiro quarto do século vinte e um, encontrei um jovem que desejava um relacionamento estável com minha “coroa”. E foi assim que o presente do meu mestre vai dar vida às palavras de outro jovem sonhador...

Que sejam felizes e que desse casamento surjam muitos filhos: poesias, crônicas, contos, romances… para que suas crias continuem falando quando ele for dormir.




Neri de Paula Carneiro

Mestre em educação, filósofo, teólogo, historiador

Outros escritos do autor:

https://pensoerepasso.blogspot.com/

Filosofia, história, religião: https://www.webartigos.com/index.php/autores/npcarneiro;
Literatura: https://www.recantodasletras.com.br/autores/neripcarneiro;
E.Books: https://www.calameo.com/accounts/7438195.




A vida é má: uma cronica para além da ironia

A Paz… Desejada qual boca da pessoa amada! Sonhada para toda a vida! Mas a vida não quer a paz. A vida leva para a morte! A vida se entrega ...