domingo, janeiro 11, 2026

A vida é má: uma cronica para além da ironia

A Paz…

Desejada qual boca da pessoa amada! Sonhada para toda a vida!

Mas a vida não quer a paz. A vida leva para a morte! A vida se entrega nos braços da morte!

Pare, pense, a paz é diferente. Reflita: A paz é do bem!

A paz pode produzir alegria, conecta o mundo e pode pôr as pessoas em sintonia para viver, pois viver é bom. O viver pode ser salutar, mas só se for para viver em paz. Se é verdade que viver é bom, a vida deixa a desejar.

A paz gera festa, comemoração, faz bem ao coração. A paz faz a pessoa exultar de emoção. Não se contém e quer abraçar o mundo, as pessoas, a multidão. A paz vai além da sensação, espraia-se feito onda frágil, mas valente e constante na imensidão.

A paz, as vezes teimosa, desabrocha feito flor; semeia sementes para proliferar em seu perfume… e não se importa por não chegar em primeiro lugar. Aceita vir depois, mas quer chegar. Quer ir a todos e a todos abraçar, mesmo que seja por pouco tempo, até que algum louco a atropele…

Mas a danada da paz, vai além de si mesma. E que coisa incrível, veja que coisa louca é a paz, pode até gerar mais vida. Ela sabe que é bom viver em paz, apesar da vida ser má.




A vida…

A vida não é assim. A vida é má. A vida sempre termina em morte!

Está certo e é certo o que dizem: muitos jovens sobrevivem, vão além, sua vida se prolonga como adulto até a velhice… Porém, como o tempo, a vida não para! E se é verdade que muitos são os jovens que não morrem, também é verdade não existe velhice que não termine em morte.

A vida até tolera alguns jovens, mas não respeita os velhos e, sorrateira, atira todos os velhos na incógnita da morte.

A vida é irmã e cúmplice da morte. A vida não quer o viver, a vida quer a morte!

A vida, por maravilhosa que seja, sempre trai o vivente. Carrega-o nos braços como mãe embalando o filho… mas tropeça no tempo e, do nada, abandona o vivente. E este, sem vida, descansa na morte.

O destino da vida é a morte; o sentido da vida é a morte!

E vai além, a vida não escolhe dia nem momento; não escolhe alegria, dor ou sofrimento… é seu contentamento abandonar, deixar o vivente…

Sai, sorrateira… A alguns engambela e prolonga-se em dor. Disfarça-se numa doença incurável, como quem diz, “se cuida!” Porém, qual cuidado, qual nada, ela se esvai feito goteira pingando vida até encontrar o funda seco da caixa vazia. E a vida entrega sua última gota à morte.

Má é a vida.

A uns dá saúde, a outros só sofrimento. A uns dá alegria, a outros só desalento. A uns dá riqueza a outros, padecimento. A uns dá de tudo, mas de todos se retira, sopro de vento.

Má é a vida.

Para alguns dá riqueza sem conta, mas lhe tira a saúde; a outros dá saúde inquebrável feito diamante, mas junto vem sobrecarga de trabalho; o pobre passa a vida a trabalhar, sem a saúde da vida gozar. E, pior de tudo, o trabalho sangra a vida no labor enquanto só alguns podem acumular.

Má é a vida, mata o pobre de tanto trabalhar, mata o rico sem a vida aproveitar…

“E a vida, o que é? Diga lá, meu irmão”

Sopro do Criador? Triste caminhar? Trabalho, feito dor, para vida ganhar? Esforço para viver em paz?

Só no fim a vida é justa: não escolhe rico, pobre, feio ou lindo… no fim, toda vida termina em morte.




A morte?

A morte, essa moça eterna, a tudo nivela, pois tudo na vida termina nela.

A morte, garota discreta, não se mostra, nem se dá antes da sua hora predileta.

A morte, menina madura, com a vida se encontra, mas com ela não se mistura.

E, já que na vida se caminha para a morte, essa amiga do fim da vida vem chegando de mansinho… aproxima-se diariamente, discretamente, constantemente, sorrateiramente, inexoravelmente… e a cada segundo mais se aproxima; a cada minuto, a cada hora, a cada ano vivido a mais, é um ano a menos de vida, a caminho da morte.

Em cada comemoração de “mais um ano de vida”, ela sorri e olhando nos olhos do vivente, repete o refrão: “mais um ano a menos…”

E a vida, sorrindo com ironia, olha para o vivente enquanto a morte, no silêncio do vida, convida: “vem, repousa em meus braços. Eu te espero desde o teu nascimento”

E só no fim da vida, em plena morte… é só aí quando a última gota de vida se esvai na morte é que algum louco lembra e diz: descanse em paz!




Neri de Paula Carneiro


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