7.8.26

NO VELÓRIO

Foi meu primo quem me contou.

Ele jura que é verdade, que viu com os próprios olhos, que aconteceu bem do ladinho dele …

A mulher do prefeito, de uma cidade vizinha, veio para o velório. O velório também era lá, nessa cidade!

E tinha bastante gente pois a morte é a situação da vida que mais atrai gente: gente amiga, gente curiosa… e gente que quer ter certeza se o traste morreu mesmo!

Todos sentados, cada um chorando do seu jeito. Cada um falando as próprias opiniões a respeito do defunto, "pessoa tão boa!" - diziam, meio que por obrigação.

Você já deve ter visto isso que acontece e visto como é engraçado: o defunto pode ser um traste, mas vira uma excelente pessoa depois que morre: “Pena que morreu tão jovem. Tão bom que era!”

Do lado do meu primo, que era conhecido do defunto, que havia virado gente boa (bem, é isso o que acontece! Também não sei se não era.)… do lado do meu primo estava a mulher do presidente da câmara municipal.

Ela também era antiga conhecida do defunto. Ela também era colega do meu primo. Eles haviam feito faculdade juntos, e essas coisas... 

Os três … o defunto, meu primo e ela, que acabou casando com um qualquer… que virou presidente da Câmara, tempos depois quando todos já estavam estabelecidos na vida… no caso, o defunto, agora morto… os três continuavam mantendo a amizade antiga...

Mas essa é outra página da história que, se você me der um tempinho, conto depois!

Do lado que era o outro lado da mulher do presidente da Câmara, na cadeira vaga, sentou outra mulher. Chegou em silêncio e sentou-se. Permaneceu em silêncio, mas só por alguns segundos.

Não começou falando. Começou mexendo e remexendo naquela enorme bolsa.

O tamanho da bolsa era ostensivo. Só por ostentação, mesmo, pois, todo mundo sabia – no caso eu só fiquei sabendo porque meu primo contou – ela era assim mesmo, meio espalhafatosa.

Mexe que remexe na bolsa até que solta um suspiro de alívio e tira as mãos de dentro da bolsa. Na mão vem um celular. No celular devia haver algo muito importante, pois ela apertou o botãozinho – também isso quem me contou foi meu primo, eu não estava lá, nem vi nada disso! – e o aparelhinho fez um “bip!” e ela, ainda de forma espalhafatosa, começou a procurar algo.

Devia estar procurando algo na sua galeria de fotos, pois depois de mais alguns segundos interrompeu os gestos de passar os dedos na tela e esticou os olhos para algo que estava vendo na tela do aparelho.

Olhou mais uma vez e piscou os dois olhos, como quem está querendo ver com mais nitidez.

Depois de piscar e rever o que estava vendo, tocou o braço da amiga do meu primo, que era a mulher do presidente da câmara.

Ah! Antes que eu esqueça, a mulher espalhafatosa de bolsa ostensiva e de celular na mão era a mulher do prefeito.

E as duas eram não exatamente amigas, mas conviviam amigavelmente por conta da função dos respectivos maridos… mas isso também faz parta de outra página da história … que conto outro dia, caso você queira saber os detalhes …

Pois antão, depois de se certificar de que era aquilo mesmo que estava buscando em sua galeria, a mulher do prefeito, que não era amiga do meu primo, tocou o braço da mulher do presidente da câmara, que era amiga o meu primo, para mostrar algo, que meu primo não viu. Tocou novamente o braço da amiga e mostrou a tela do celular:

- Conhece? – perguntou para a mulher do vereador que era o presidente da câmara.

Antes que ela dissesse que sim ou que não, completou sua intenção, que era falar da outra pessoa que estava estampada na tela.

- Morreu!

Ainda sem dizer uma palavra, a amiga do meu primo se reposiciona na cadeira para ver melhor o que deveria ser uma foto de uma pessoa morta. E a outra continuou:

- Devem ter feito photoshop na foto. Ela não era bonita assim…

As duas se olharam. A mulher do prefeito para ver a reação da mulher do vereador e a mulher do presidente da câmara querendo entender as intenções da mulher do prefeito…

Meu primo não soube me dizer o que aconteceu na sequência do que poderia ser o início de um diálogo, pois chegou o padre pra jogar água benta na cara do defunto que já estava de saída.




Neri de Paula Carneiro


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