Pode parecer estranho, mas todos os anos a Igreja nos convida a repetir as celebrações quaresmais. Embora por caminhos distintos, a mesma jornada litúrgica que se inicia justamente com Quaresma e se coroa com a PÁSCOA DO SENHOR, prolongando-se pelo Tempo Pascal. E isso se renova a cada novo Ano Litúrgico.
Caminhos distintos porque celebramos três ciclos litúrgicos, ou seja, celebramos os mistérios da vida, morte e ressurreição de Jesus ao longo de três anos a partir de leituras bíblicas que configuram os três Anos Litúrgicos (ano A, ano B e ano C). E tudo converge para a Quaresma e culmina na Páscoa do Senhor.
E aqui estamos falando apenas sobre as celebrações do Ciclo da Páscoa, e não de todo o ANO LITÚRGICO. Este, como sabemos começa com o Advento, coroa-se com o Natal e prolonga-se pelo pelo Tempo de Natal, configurando o Ciclo do Natal.
Cada um de nós que frequenta regularmente a comunidade religiosa e com ela celebra os Mistérios do Senhor, sabe que a Quaresma e todas as demais celebrações que a partir dela se prolongam como que preenchem nossa fé, nosso imaginário, nosso processo de conversão, nossa esperança, nossa curiosidade…
E, podemos dizer, essa é uma característica da Quaresma. Uma resposta que a Igreja nos apresenta para nos ajudar a entender a doação de Jesus ao mesmo tempo que celebramos o mistério de sua entrega.
Então, o que é a Quaresma e o que nela celebramos?
Quaresma
Vem de quadragésima ou quarenta, querendo representar os quarenta dias que Jesus se retirou, jejuou, orou e preparou-se para agir em favor das pessoas (Mateus 4:1–11, Marcos 1:12,13 e Lucas 4:1–13).
Tem a ver com quarar, limpar, purificar, reconciliar. Trata-se de um tempo no qual a Igreja nos propõe fazermos uma revisão de vida; nos propõe abandonarmos aquilo que pode estar nos distanciando de Deus; nos propõe voltarmos a ele de forma mais pura em vista da constante e eterna união.
A Igreja nos ensina, nas palavras das Normas Universais para o Ano Litúrgico e Calendário (NUALC) que: “O Tempo da Quaresma visa preparar a celebração da Páscoa; a liturgia quaresmal, com efeito, dispõe para a celebração do mistério pascal tanto os catecúmenos, pelos diversos graus de iniciação cristã, como os fiéis, pela comemoração do batismo e penitência” (NUALC 27). Ao promulgar as Normas, o Papa Paulo VI tinha em mente o que os bispos haviam recomendado no número 109 da Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia (SC): “Ponham-se em maior realce, tanto na Liturgia como na catequese litúrgica, os dois aspectos característicos do tempo quaresmal, que pretende, sobretudo através da recordação ou preparação do Baptismo e pela Penitência, preparar os fiéis, que devem ouvir com mais frequência a Palavra de Deus e dar-se à oração com mais insistência, para a celebração do mistério pascal”
A atual perspectiva quaresmal está centrada na celebração da Páscoa, a celebração batismal e a penitência. A penitência que se popularizou na pratica do jejum, mas que vai muito além.
É tempo de Penitência: Não se trata de uma penitência por termos recebido um castigo, pois Deus não castiga. Trata-se, de um período que a Igreja nos propõe nos reconhecermos em nossas limitações. Limitações que podem nos manter afastados do Criador e por isso o tempo da Quaresma nos propõe meios de nos fortalecermos contra as fraquezas e fortalecermos nossa sintonia com Deus e sua proposta.
Isso é o que nos propõe a penitência da Quaresma: limpar nossa vida dos nossos vícios. Coisas que nos agradam, mas que desagradam ao Senhor. E uma das formas de nos penitenciarmos é a prática do jejum: abstendo-nos de algo que nos é importante, desejável ou que muito nos agrada.
Notando que nem tudo que nos agrada desagrada a Deus. Desagrada a Deus aquilo que nos diminui ou afasta de seu Plano de Amor; aquilo que produz sofrimento ou dificulta a vida dos irmãos. Um almoço em família nos agrada profundamente, e essa é uma atitude que agrada a Deus. Porém, se nesse encontro nos divertimos com as fofocas familiares, de forma que um membro da família (geralmente ausente) é malfalado, difamado… isso é agradável a nós, tanto que participamos do falatório, mas desagrada a Deus. Portanto o que desagrada a Deus é o sofrimento e fazer outros sofrerem.
A Quaresma, portanto, nos convida a rever o que fizemos e fazemos e que desagrada a Deus. E, conscientes disso, somos convidados a fazer um sério propósito de mudar nossa vida, voltando a merecermos a graça divina.
E dizemos “voltar a merecer” poque em cada ato que desagrada a Deus – mesmo que seja só em pensamento – estamos nos afastando de Deus e nisso abrimos mão de sua graça. Daí ser necessário um esforço não de reconciliação, pois Deus não nos abandonou, mas de retorno por termos quebrado a boa relação e, com isso, termos nos afastado.
A isso se presta a Quaresma.
É tempo de Oração: Um tempo de oração porque, da mesma forma que Jesus orou quando se retirou para o deserto (daí uma das características dos nossos retiros, como tempo de oração), nós também, no tempo quaresmal, podemos orar a fim de recebermos a graça de sermos capazes de nos penitenciarmos a fim de nos convertermos.
Lembrando que a conversão é uma graça que devemos implorar ao Criador mediante oração. Não como merecedores, mas como suplicantes, pois a graça divina vem para aqueles a quem Deus entrega e não para satisfazer nossas vontades ou nossa ostentação: “vejam como sou devoto!”; “sou tão devoto que rezo o terço ajoelhado!”; “Sou tão devoto que carrego o terço como um adorno pendurado no pescoço ou no braço como um colar ou bracelete!”
É necessária a nossa oração, mas não para agradar a Deus e sim por que somos gratos a ele. Oramos pedindo, mas Deus nos concede porque e quando essa é a sua vontade. Não somos dignos por merecimento, mas a merecemos por bondade do Pai.
Aqui vale o ensinamento de Jesus ao observar o que pediam o publicano e o fariseu (Lc 18,10-14). O primeiro suplicava, a partir de seu pecado, enquanto o fariseu exaltava suas virtues aparentes e se colocava acima do outro “não sou como aquele!”. O Senhor atendeu ao penitente e não ao exibicionista.
Somos convidados a orar constantemente, mas durante a quaresma podemos intensificar nossas preces pedindo a graça da conversão mediante nosso gesto de nos penitenciarmos.
A isto se presta a Quaresma.
É tempo de Caridade: O tempo da quaresma, também é um tempo oportuno para intensificarmos nossos gestos de amor aos irmãos. Notando que o amor manifesta-se no gesto caridoso. De nada vale, diante de Deus, nossa prece vazia se ela não chega a Deus recheada de gestos caridosos. Mas não a caridade ostensiva, feita para as câmaras e redes sociais. Vale para o Senhor aquela que se realiza apenas aos olhos de Deus. A caridade é uma resposta à necessidade do outro e não oportunidade de ostentação.
Novamente Jesus nos ensina ao observar as pessoas que frequentam o templo e fazem suas ofertas (Mc 12,41-44; Lc 21,1-4). Também o apóstolo Paulo já havia ensinado à comunidade de Corinto (1Cor 13,1-13): é necessário que a pessoa tenha fé e seja esperançosa; é necessário manter-se em clima de oração confiando em Deus, mas se não houver caridade essa pessoa será apenas um objeto barulhento como o sino. E sabe por qual motivo o sino soa tão alto? Porque é vazio!
Por isso, o apóstolo insiste: tudo é importante, mas tem que haver caridade. E o mais importante é a caridade. Por isso, os mestres espirituais sérios sugerem, orar intensamente e fazer penitência cotidianamente.
E se a penitência envolver a abstenção de algo que implique em custo econômico, os mestres sérios sugerem que essa economia seja revertida em oferta de caridade para sustentar obras de caridade.
E no caso do Brasil, o mecanismo que a Igreja criou, seguindo o modelo de outras igrejas ao redor do mundo, foi a instituição da Campanha da Fraternidade. Assim a CNBB nos orienta e rezarmos, fazermos penitência e a destinarmos um pouco do que economizamos em nossa penitência para as obras de caridade mantidas pela Igreja.
Entretanto, isso só tem sentido e valor, diante de Deus, se for feito por amor àquele que recebe. Pois ele vai receber aquilo que foi doado por você, como dom de Deus por meio das mãos da Igreja. Assim a tua mão direita, não saberá o que fez a tua esquerda que dá a oferta, mas o Pai que está no céu e que vê o que está oculto, e ele dará a recompensará ao ofertante (Mt 6,3-4). Deus retribui ao ofertante não por causa de sua oferta, mas porque a oferta ajudou quem precisava.
A Isso se presta a Quaresma: oração, penitência e caridade.
As origens da Quaresma
Trata-se de uma prática que se desenvolveu desde as origens da Igreja, no contexto das celebrações batismais e como preparação para a principal celebração que é a Páscoa do Senhor. Inicialmente eram poucos dias de preparação para a celebração anual da Páscoa. Ou seja, destinavam-se alguns dias para jejum e oração em preparação à celebração do batismo a fim de que o neófito (o novo batizado) pudesse participar plenamente da celebração pascal.
Isso porque, nas primeiras comunidades, os catecúmenos (adulto que estava sendo preparado para o batismo) só participava da celebração até a escuta da palavra. Depois das preces, era despedido, e voltava para casa, pois somente os batizados podiam participar plenamente da ceia pascal.
A preparação do batismo correspondia, inicialmente, à preparação dos adultos (os catecúmenos) que desejassem receber o batismo. Porém, com a expansão do cristianismo e com o fato de existirem famílias inteiras que eram cristãs, desenvolveu-se a prática do batismo de crianças. Com isso, o catecumenato deixou de ser uma exigência, pois as famílias assumiam a catequese de seus filhos batizando-os. E isso com um argumento simples: os pais sempre desejam o melhor para seus filhos, sendo assim, querem que eles estejam sempre junto a si. Entende-se, como em nossos dias, que os pais cristãos, desejam que seus filhos cresçam nessa fé. E isso estava em sintonia com o ensinamento de Jesus, a missão conferido aos discípulos (Mt 28,18-20; At 16,33): Fazer discípulos!
Porém a partir do séculos IV e V a celebração quaresmal vai ganhando novos contornos. O papa Leão Magno (sec V), por exemplo afirma que para celebrar o supremo mistério de Cristo, a Páscoa, se faz necessário que nos preparemos mediante a oração e os exercícios de misericórdia.
Com o transcorrer dos séculos, infelizmente, as práticas dos primeiros cristãos, centradas na simplicidade e profundidade litúrgica foram se perdendo. Setores da Igreja se distanciaram do Jesus pobre e despojado que se entregou livremente para resgatar a todos que por ele se decidiam (Jo 19,23-24; Mt 27,35; Jo 10,14-18). E a centralidade da entrega pascal foi envolvida pelo luxo dos paramentos. E, principalmente durante o período medieval, quando a Igreja se viu envolvida com o poder e as disputas políticas a profundidade teológica da celebração litúrgica e a dedicação aos necessitados foi superada pela ostentação e pelos paramentos luxuosos. A exterioridade ganhou espeço e a simplicidade do amor foi esvaziada.
Por volta do século XVIII, entretanto, o Espírito tocou os teólogos e liturgistas. E assim iniciou-se um movimento de retorno às origens. Passou-se a reler o ensinamento dos Santos Padres. Esse movimento produziu o movimento de Renovação Litúrgica. E a ação do Espírito que “sopra onde quer” (Jo 3,8) moveu os bispos que, no concílio Vaticano II aprovaram a Reforma Litúrgica em sintonia com o Espírito que move a Igreja.
Esses novos ventos, soprados pelo Espírito, guiou os padres conciliares que, já na metade do século XX, ouviram a voz dos mosteiros, dos teólogos, liturgistas e historiadores que chamaram a atenção para as origens. E assim, ouvindo o Espírito “que fala às Igrejas” (Ap 2,7.11.17; 3,13) e “sopra onde quer” (Jo 3,8), os bispos buscaram inspiração nos ensinamentos patrísticos. A renovação da Liturgia e da Igreja, portanto, mais do que renovar é uma volta às origens. Renovar, no espirito do Concílio Vaticano II, é beber na fonte dos Pais da Igreja.
Graças a esse movimento de renovação – ou de retorno às origens – os bispos conciliares, recolocaram a centralidade do Mistério Pascal na vida da Igreja e da Liturgia. O Concílio, portanto, veio nos recordar que é na Liturgia que se atualiza o mistério da fé e se perpetua o anúncio da paixão, morte e ressurreição de Jesus, como ensina a constituição Sacrosanctum Concilium (SC), na qual os bispos apresentaram os critérios para atualizar a liturgia em relação a cada sacramento e ao ano litúrgico (SC 102 a 104), destacando a centralidade da celebração pascal na liturgia dominical
Afirmam os bispos: “Por tradição apostólica, que nasceu do próprio dia da Ressurreição de Cristo, a Igreja celebra o mistério pascal a cada oito dias, no dia que bem se denomina dia do Senhor ou domingo. Neste dia devem os fiéis reunir-se para participarem na Eucaristia e ouvirem a palavra de Deus, e assim recordarem a Paixão, Ressurreição e glória do Senhor Jesus e darem graças a Deus que os »regenerou para uma esperança viva pela Ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos» (1 Pedr. 1,3). O domingo é, pois, o principal dia de festa a propor e inculcar no espírito dos fiéis; seja também o dia da alegria e do repouso. Não deve ser sacrificado a outras celebrações que não sejam de máxima importância, porque o domingo é o fundamento e o centro de todo o ano litúrgico.” , dizem os bispos no número 106 da Sacrosanctum Concilium.
Na sequência, esta orientação conciliar é seguida de outra, na qual os bispos reafirmam a necessidade de rever o Ano Litúrgico segundo exigem e “permitirem as circunstâncias de hoje”. Por isso orientam aos teólogos e liturgistas: “Reveja-se o ano litúrgico de tal modo que, conservando-se ou reintegrando-se os costumes tradicionais dos tempos litúrgicos, segundo o permitirem as circunstâncias de hoje, mantenha o seu carácter original para, com a celebração dos mistérios da Redenção cristã, sobretudo do mistério pascal, alimentar devidamente a piedade dos fiéis” (SC 107).
Portanto, não é demais repetir: as inovações do Vaticano II, ou a atualização (o aggiornamento) de acordo com a proposta do Papa João XXIII, não é um avanço irresponsável proposto por alguém em busca de novidades fúteis, mas um retorno às fontes, renovando a Igreja com o espírito com o qual ela nasceu! E ela nasceu por vontade e desejo do Senhor que venceu a morte em sua Páscoa: “Desejei ardentemente comer esta páscoa convosco antes de sofrer; pois eu vos digo que já não a comerei até que ela se cumpra no Reino de Deus” (Lc 22,15-16). As origens, portanto, nos conduzem à Páscoa definitiva.
A quaresma para nós
É com esse espírito que hoje celebramos a Tempo da Quaresma. Ou seja os 40 dias durante os quais os cristãos se preparam, com oração, jejum e caridade, para o centro da vida litúrgica e de nossa fé: a celebração da Páscoa do Senhor.
Inicialmente é necessário lembrar que o Tempo da Quaresma se interpõe entre nós e nosso cotidiano atribulado, corrido, atarefado, carregado de atividades… afazeres que consomem todo nosso tempo. Razão pela qual dedicamos pouco (ou nenhum) tempo para Deus. Dele tudo recebemos mas a ele pouco agradecemos; pouco retribuímos. Nossos afazeres têm mais importância do que aquele que nos concede as condições de realizar o que fazemos.
Ciente disso, a Igreja nos apresenta a Quaresma como um convite a parar. Não para deixar de viver, mas para repensarmos, inicialmente, nosso ritmo de vida. Depois para redimensionarmos nosso tempo. Na Quaresma também podemos rever nossas posturas e prioridades no cotidiano de nossa vida. É um tempo propício a nos indagarmos: o que realmente queremos para nossa vida?
O Tempo da Quaresma, é um convite que se desdobra em outros convites. 1- Convite a desacelerarmos correria do dia a dia com a finalidade de redefinirmos nossas prioridades. 2- Convite a voltarmos nossa atenção e nossas ações para aquilo que realmente importa: nossa vida e nossas relações, pois se destinamos muito tempo aos nossos trabalhos e atividades cotidianos, seguramente deixamos pouco tempo para as pessoas do nosso convívio e para Deus. 3- Convite a retomarmos o rumo do encontro: com a família, com os irmãos e com o projeto de Deus. 4- Convite à conversão, recolocando o plano de Deus como centro de nossa vida.
A Quaresma é um convite à conversão. Uma conversão que nos convida a nos prepararmos para nosso encontro com Deus e com os irmãos. Uma preparação que nos convida a fazermos da nossa páscoa a uma caminhada a fim de nos encontrarmos na Páscoa do Senhor. E, para que a Pascoa do Senhor seja plena em nós, somos convidados aos exercícios quaresmais que são agradáveis ao Senhor, como Jesus nos ensina em Mateus (Mt 6,1-18) conforme nos é apresentado na liturgia da Quarta-Feira de Cinzas: Oração, Jejum/Penitência e Caridade, mas tudo realizado de forma que somente Deus fique sabendo dos atos realizados.
E com isso somos levados àquilo que nos propõe o Espírito ao nos apresentar os desafios das Campanhas da Fraternidade. Por meio da Campanha da Fraternidade, dese o inicio da década de 1960, a Igreja nos propõe realizarmos gestos concretos de oração, jejum e caridade.
CARIDADE: Não se trata, apenas, de dar o que sobra, mas de juntar esforços para reconstruir a sociedade baseada no amor. Muito mais do que “dar esmola” por pena do necessitado, o cristão é convidado a se empenhar na reconstrução da sociedade a fim de eliminar as causas da pobreza. Eliminar aquilo que gera a necessidade de alguém pedir esmola; eliminar, portanto, as causas da pobreza de forma que a pessoa seja valorizada e reencontre os meios pelos quais possa deixar de depender da caridade tornando-se provedor de seu próprio sustento.
JEJUM: o jejum tem a ver com solidariedade. Não se trata apenas de mortificação do corpo, ou seja, não se trade de apenas deixar de comer isto ou aquilo. O corpo, que é morada de Deus, precisa ser alimentado. Mas ao nos alimentarmos devemos nos lembrar de que o que sobra em nossa mesa está faltando na mesa de milhões de irmãos. Jejuar, portanto, deve estar associado ao gesto de repartir com quem necessita.
Isso significa que o jejum pode nos ajudar a sentir o que sentem os desvalidos. Para quem tem de sobra, é fácil deixar de comer algo que nunca lhe falta. Por esse motivo, ao propor jejum a Igreja convida o cristão a rever suas posturas e seu senso de solidariedade. Ao fazer jejum o cristão deve se indagar: “como posso contribuir para que não existam pessoas passando fome, num jejum que lhes é imposto pela pobreza, obrigadas ao jejum cotidiano por lhes faltar alimento no dia a dia”?
ORAÇÃO: A oração não pode ser apenas uma repetição mecânica de formulas (Pai Nosso, Ave Maria, por exemplo). Evidentemente nossas orações costumeiras são importantes e necessárias. Porém, não podem se converter numa recitação mecânica onde a boca fala automaticamente coisas com as quais o sentimento não está unido ou enquanto o pensamento passeia.
O Pai Nosso nos convoca à fraternidade colocando-nos à disposição do Pai para fazermos sua sempre sua vontade. E sua vontade é que não exista nenhum de seu filhos sofrendo em dificuldades que podem ser evitadas pela nossa ação.
A Ave Maria nos convoca à contemplação de um modelo de mãe a ser seguido. Uma mãe que se colocou a serviço dos que precisavam dela (visitando Isabel, indicando a falta de vinho...). É, também, um pedido de ajuda para a conversão pessoal, para que a “Graça” da qual ela é “plena” nos alcance “agora” e sempre.
Além disso todas as demais formas de oração: meditação pessoal, oração comunitária, orações espontâneas de conexão com o Senhor, podem e devem ser meios de nos conectarmos com Deus, evidentemente, mas também canais de conexão com as pessoas ao nosso redor e do nosso cotidiano.
Temos que ter presente, além disso, que a oração tem uma dimensão pessoal e outra comunitária. Ou seja, além de rezarmos cotidianamente para alimentar nossa fé, somos convidados a orar em comunidade; orar com e para a comunidade de modo que a prece em favor pessoal não seja maior do que o suplica em favor da comunidade e de quem mais necessita. Portanto, a oração pode e deve ter uma dimensão pessoal de pedido e agradecimento pelos dons recebidos; mas também tem uma dimensão social e comunitária: comunitária, porque deve ocorrer junto com os demais irmãos; social porque o orante deve se preocupar com as necessidades dos outros…
E isso, se é válido para nosso cotidiano, é muito mais intenso no período quaresmal. O que fazemos ao longo do ano, deve se intensificar na Quaresma. O que não fazemos ao longo do ano, devemos nos habituar a fazer no período de recolhimento quaresmal.
E tudo isso passa pela Campanha da Fraternidade (CF). Trata-se de uma exercício que convoca à oração com a Igreja em favor de pessoas e grupos carentes ou situações que demandam transformações. Trata-se de uma campanha que propõe jejum pessoal e social em favor das causas propostas pela campanha, cujo tema e público alvo é atualizado todos os anos; trata-se de uma campanha caritativa, pois a oração é em favor do outro, o jejum tem os irmãos como motivação e o resultado econômico, provindo da coleta que se realiza no domingo de ramos destina-se a obras sociais, mantidas pela Igreja. Portanto assim como toda a Quaresma, a Campanha da Fraternidade é ação eclesial em favor dos que precisam de ajuda, de solidariedade e de nossas orações.
Jejum, oração e caridade são exercícios quaresmais que a Igreja nos apresenta para bem vivermos nosso batismo no período quaresmal e reavivarmos nossa fé ao longo do ano. Porém esses exercícios não se esgotam numa espiritualidade intimista e personalista. Pelo contrário, eles ganham sentido e relevância quando realizadas com a comunidade e com as pessoas que nos circundam.
Jejum, oração e caridade não devem ser entendidos como exercícios isolados, pessoais e mágicos, mas como momentos fortes para vivermos em sintonia com a Igreja e com cada pessoa que vive ao nosso redor e, principalmente celebrando em comunidade.
O tempo da Quaresma
Quem participa cotidianamente da vida celebrativa já deve ter percebido que o tempo da Quaresma é rico em celebrações carregadas de grande simbologia. Trata-se de um tempo com um profundo convite à conversão.
Quarta Feira de Cinzas: A Quaresma está organizada ao redor de alguns momentos litúrgicos importantes: ela se incia com a Quarta Feira de Cinzas: “Pois tu és pó e ao pó voltarás” (Gn 3,19). Prolonga-se ao longo dos domingos da Quaresma que culminam no Domingo de Ramos. E este é o inicio da Sema a Santa. Na Semana Santa celebramos a Quinta Feira Santa, com Jesus se oferecendo na Eucaristia e assim nos preparamos com o tríduo Pascal para e a celebração central da liturgia cristã, a Páscoa do Senhor.
Essa estrutura tem a finalidade de nos lembrar que sem a graça de Deus somos cinza. Somos o resto de algo que já não é. O material que gera a cinza foi um ramo verde, foi desligado do seu tronco ou de suas raízes e secou ao ponto de ser queimado, virando cinzas. Por isso, a cinza é o resto do que já não é mais. Dessa forma podemos entender esta importante celebração: Deus nos deu a vida, porém a força do pecado – pessoal e social – nos afasta do seu Plano de Salvação. E sem Deus deixamos de ser aquilo que era nosso destino no Pai. Somos, então aspergidos com cinzas para nos lembrarmos disso e ao longo dos quarenta dias da Quaresma, nos convertermos.
Ao longo dos quarenta dias, nos domingos da Quaresma, a Igreja nos propõe textos bíblicos que nos convida à conversão.
E ao final dos quarenta dias, ao longo da Semana Santa e do Tríduo Pascal, somos convidados a refazer com Jesus sua via dolorosa. E assim, quela criança que nasceu entre os marginalizados, viveu entre os excluídos é condenado e morre entre os malfeitores. Mas o autor da vida não é prisioneiro da morte por isso ressuscita e nos mostra o caminho da glória eterna. Retorna para o Pai e no seu Reino de Amor nos espera para a vida definitiva, no coração da Trindade Santa.
Domingo de Ramos da Paixão do Senhor: Durante os quarenta dias da Quaresma ocorrem os domingos da Quaresma. Porém o último, não denominamos de “domingo da Quaresma”, mas Domingo de Ramos ou o Domingo de Ramos da Paixão do Senhor.
Nesta celebração vemos o Senhor Jesus, ao mesmo tempo, sendo reconhecido e aclamado pelo povo e em seguida perseguido, preso e torturado pelos líderes religiosos e políticos da época.
Trata-se de uma celebração que representa a ambiguidade da fé: quando vivida em sua pureza, reconhece os dons que Deus oferece e multiplicam a vida; mas quando manipulada por interesses mesquinhos abandona o Senhor da vida e produz violência e a morte do inocente. Essa situação repete-se e se multiplica ao longo da história em que milhões de inocentes são mortos por aqueles que pensam que podem mais e que se consideram senhores da verdade.
Quinta Feira Santa: A Quinta Feira Santa é um dia especial, dentro da Semana Santa.
Primeiro porque, de manhã, os bispos se reúnem com os padres e diáconos da diocese para a celebração da Missa do Crisma.
Essa celebração, da manhã, tem duplo significado.
O primeiro é o sentido da unidade: o bispo e o clero da diocese, numa concelebração solene, renovam os votos de serviço à Igreja. E isso ocorre na perspectiva apresentada por Isaías: “O espírito do Senhor Iahweh está sobre mim, porque Iahweh me ungiu; enviou-me a anunciar a boa nova aos pobres, a curar os quebrantados de coração e proclamar a liberdade aos cativos, a libertação aos que estão presos, a proclamar um ano aceitável a Iahweh e um dia de vingança do nosso Deus, a fim de consolar todos os enlutados” (Is 61,1-2).
Outro significado da Missa do Crisma está naquilo que podemos chamar de “Missa da Unção” pois também são consagrados os “santos óleos” que serão utilizados ao longo do ano para as cerimonias de batizado, unção dos enfermos, crisma e ordenação presbiteral Em razão disso podemos dizer que esta é uma celebração de unidade, de bençãos e de consagração:
A Quinta feira Santa também é especial porque é o início do Tríduo Pascal e as comunidades celebram o “Lava pés” ou a Missa da Ceia do Senhor.
Com esta celebração a Igreja nos propõe refletirmos sobre a “última ceia” de Jesus junto aos companheiros de jornada. Nessa ceia derradeira Jesus instituiu o sacramento da Eucaristia, como ensina Paulo: Jesus se dá como alimento e assim permanece com os seus até seu retorno glorioso:
“O que eu recebi do Senhor, foi isso que eu vos transmiti: na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e disse: ‘Isto é o meu corpo que é dado por vós. Fazei isto em minha memória’. Do mesmo modo, depois da ceia, tomou também o cálice e disse: ‘Este cálice é a nova aliança, em meu sangue. Todas as vezes que dele beberdes, fazei isto em minha memória’. Todas as vezes, de fato, que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, estareis proclamando a morte do Senhor, até que ele venha”. (1Cor 11,23-26).
Tríduo Pascal: A celebração da ceia do Senhor é, também, o início do Tríduo Pascal. Ou seja, com esta celebração a Igreja entra no clima de reflexão com o qual percorrerá a Sexta Feira Santa e o Sábado. Celebrando a entrega do Senhor que vai nos conduzir à exultante alegria da Ressurreição, na celebração da Vigília Pascal que ocorre na noite de sábado para domingo. É a celebração da vida vencendo a morte. É a celebração em que Jesus, confirma que é o Cristo vencedor da morte e aquele que resgata a humanidade.
É o coroamento da missão de Jesus de Nazaré, para evidenciar a divindade do Cristo. “Jesus, sabendo que o Pai tinha colocado tudo em suas mãos e que de Deus tinha saído e para Deus voltava” (Jo 13,3).
Por isso, não estacionamos na ceia derradeira, da quinta feira; não ficamos na lamentação da entrega da Paixão, da sexta feira; não ficamos impotentes no silêncio do Sábado Santo. O que fazemos, então?
Exultamos de alegria na vigília da noite de sábado cantando a grandeza do Deus. Ele que libertou seu povo da escravidão do Egito, na antiga páscoa. Pelo sangue de Cristo na cruz, mostra-nos o caminho da vina na Ressurreição do Senhor, que celebramos na noite luminosa da Ressurreição.
Ao longo de todo o Sábado Santo, o dia de silêncio, liturgicamente permanece a mesma sensação da sexta feira: sensação de perda, de ausência, de derrota, de incerteza… geradas pela morte do Senhor. Por isso o Sábado Santo é o dia de: “e agora, o que fazer?”
Mas, e isso o sabemos pela nossa fé: Jesus morreu, sim. Porém, já não está morto. “ressuscitou, conforme havia dito” (Mt 28,6) e manifesta-se à mulheres; depois manifestou-se aos seus, como atesta o apóstolo Paulo (1Cor 15,3-8).
O Tríduo Pascal, e todo o Sábado Santo é tempo silêncio para refrearmos e redirecionarmos nosso ritmo de vida e associarmo-nos às vítimas de cruzes impostas: desemprego e falta de moradia; doenças evitáveis; fome provocada pela concentração de bens; discriminação e exclusão social. As cruzes impostas às vítimas do malquerer, das mentiras, das intrigas na sociedade e no trabalho…. As cruzes geradas pelas agressões à natureza e toda a criação que geme e reage, gerando outras cruzes manifestadas nos desastres ambientais... Em todas estas e também noutras situações, Jesus Cristo continua sendo crucificado; e quando alimentamos essas situações continuamos a manter Jesus no sepulcro, mesmo sabendo de sua ressurreição.
Porém, e isso celebramos no sábado da Luz, toas essas cruzes e dores podem ser superadas pois a própria morte foi superada por Jesus, o Cristo. Por isso é que, se no Natal a Igreja exulta de alegria ao cantar “Glória a Deus nas alturas…”, na Vigília Pascal a explosão de alegria é cantar “Aleluia, Cristo ressuscitou!”
A Vigília Pascal é a Celebração da vida. Vida que se manifestou em todas as ações de Jesus de Nazaré e que se manifesta na ressurreição do Cristo Jesus. Por isso é que Paulo, afirma a vitória da vida: “Morte, onde está tua vitória?” (1Cor, 15,55).
A celebração da Vigília Pascal completa e dá sentido da celebração do Natal: o Filho de Deus nasceu para iluminar nossa vida, caminhou entre homens e mulheres como ser humano, mostrando ao ser humano como devem agir as pessoas para construir humanidade. Ao final de sua caminhada, ao concluir sua trajetória humana volta ao Pai indicando a todos o sentido da vida e que o caminho para a eternidade passa pela cruz; mas que as dores do dia a dia não são o fim. Deus não se alegra nem se diverte com nosso sofrimento, mas nos dá o exemplo de Jesus de Nazaré para nos encorajarmos e seguirmos adiante.
A vida de Jesus, suas ações e palavras em favor dos desvalidos, explicam-se na celebração da Páscoa. E toda a história do povo bíblico ganha um sentido novo, como o próprio Jesus afirma, ao questionar os caminhantes desolados: “Não era preciso que o Cristo sofresse tudo isso e entrasse em sua glória?” (Lc 24,26). Tudo isso para que se cumprisse a promessa da vida eterna, que se realiza na eterna vida do Ressuscitado; promessa feita com o sangue vertido na cruz e aceita por quem cumpre o mandamento do amor (Mt 22,36-40), uma vez que desse mandamento, afirma Jesus, de “dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22,40).
Toda a simbologia quaresmal; o clima penitencial; os fortes momentos de oração; o jejum solidário e a caridade… direciona-se para a nova luz que se inaugura na Vigília Pascal. Por isso a Nova Páscoa, a Páscoa de Jesus Ressuscitado ilumina-se no inicio da celebração com o fogo novo que manifesta ao mundo a luz que é conduzida para o interior do templo como para iluminar toda a Igreja: “Eis a Luz de Cristo!”Assim a Igreja atualiza a Páscoa de Jesus que é também a nossa Páscoa, caminhando para a Pascoa definitiva…
Sugestões de leitura
Para aprofundar estas informações podem ser consultadas inúmeras obras. Mencionamos apenas algumas. Os textos bíblicos citados foram retirados da Bíblia de Jerusalém, verão on line, disponível em: https://liturgiadashoras.online/biblia/biblia-jerusalem/; Também pode ser consultada, com muito proveito, a versão da Bíblia Sagrada Edição Pastoral, versão on line, disponível em: https://biblia.paulus.com.br/.
1- ADAN, Adolf. O Ano Litúrgico. São Paulo: Loyola. 2019.
2- AUGÉ, Matias. Ano litúrgico: É o próprio Cristo presente na sua Igreja. S. Paulo: Paulus, 2019.
3- APOSTOLADO MOTUS LITURGICUS. Cerimonial da Semana Santa http://www.ipascomnet.com/paroquia/inc.download/22062010094856Cerimoniario%20senama%20santa.pdf. 2010.
4- BOFF, Leonardo. O rosto materno de Deus. 4 ed. Petrópolis: Vozes, 1986.
5- BROWN, R. E.; DONFRIED, K. P.; FITZMYER, J. A.; REUMANN; J (orgs). Maria no novo testamento. São Paulo: Paulinas, 1985.
6- CNBB. Liturgia: Fonte e ápice da vida e ação da Igreja, Brasília: Edições CNBB.
7- CNBB. Liturgia na Ação Evangelizadora: Uma leitura litúrgica das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, Brasília: Edições CNBB.
8- CORBELLINI, Dom Vital. O Sentido do Domingo de Páscoa a partir dos Padres da Igreja. Diocese de Itapetininga. https://diocesedeitapetininga.org.br/o-sentido-do-domingo-da-pascoa-e-da-oitava-a-partir-dos-padres-da-igreja/. 2015.
9- DERETTI, Edson Adolfo. O Ano Litúrgico. São Paulo: Paulus. 2019.
10- FERREIRA, Eurivaldo Silva. O Ano Litúrgico como itinerário teológico e pedagógico da fé. Dissertação (mestrado em teologia), PUC-SP. São Paulo, p. 303. 2013.
11- GEBARA, Ivone; BINGEMER, Maria Clara L. Maria, mãe de Deus e mãe dos pobres. Petrópolis: Vozes. 1987.
12- HIPÓLITO DE ROMA. Tradição Apostólica de Hipólito de Roma. https://www.ecclesia.com.br/biblioteca/pais_da_igreja/tradicao_apostolica_hipolito_roma.html#1.%20Vida.
13- JUSTINO. Apologia I In: Antologia litúrgica. Textos litúrgicos, patrísticos e canônicos do primeiro milênio. Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia, 2003.
14- MARSILI, S. Sinais do Mistério de Cristo: Teologia litúrgica dos sacramentos, espiritualidade e ano litúrgico, São Paulo: Paulinas, 2010.
15- PRESBÍTEROS.org.br. PASCHALIS SOLLEMNITATIS: A Preparação e Celebração das Festas Pascais https://presbiteros.org.br/paschalis-sollemnitatis-a-preparacao-e-celebracao-das-festas-pascais/. 2024.
16- PRESBÍTEROS.org.br. Rubricas para a Celebração da Semana Santa https://presbiteros.org.br/rubricas-para-a-celebracao-da-semana-santa/. 2024.
17- SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Comentário às cartas de São Paulo 2, coleção Patrística 2. São Paulo: Paulus, 2010.
18- SCHMIDT, Pe. Gerson Maria na vida pública e na paixão de Cristo. In: www.vaticannews.va. 2023. https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2023-05/maria-na-vida-publica-e-paixao-de-cristo.html. Acesso em 13 de março de 2024.
19- SCHMIDT. Pe Gerson. Tempo Pascal – celebração única até Pentecostes https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2024-04/tempo-pascal-celebracao-unica-ate-pentecostes-padre-gerson-sc.html. 2024.
Neri de Paula Carneiro.
Mestre em educação, filósofo, teólogo, historiador
Outros escritos do autor:
Filosofia, História, Religião: https://www.webartigos.com/index.php/autores/npcarneiro;
Literatura: https://www.recantodasletras.com.br/autores/neripcarneiro;
E.Books: https://www.calameo.com/accounts/7438195.
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