É inegável a devoção à mãe do Senhor. Desde a saudação de Isabel “Como posso merecer que a mãe do meu Senhor venha me visitar?” (Lc 1,43). Até o alerta de Simeão “Quanto a você, uma espada há de atravessar-lhe a alma.” (Lc2,35). Desde os garçons lamentando a falta de vinho e Maria, mulher atenta às necessidades das pessoas, intercedendo em favor do noivo: “Eles não têm mais vinho!” (Jo 2,3). Até o altar supremo da cruz quando, fiel companheira é consolada pelo Filho suspenso: “Jesus viu a mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava. Então disse à mãe: “Mulher, eis aí o seu filho.” (Jo 19,26). Seguindo os passos de Jesus de Nazaré, está a mãe. Onde está a Rainha?
Podemos supor que a mãe estivesse encorajando os discípulos assustados, quando Jesus vem trazer a paz: “Ficou no meio deles e disse: ‘A paz esteja com vocês’.” (Jo 20,19). Podemos supor que a mãe era uma das mulheres que o serviam: “Grande número de mulheres estavam aí, olhando de longe. Elas haviam acompanhado Jesus desde a Galileia, prestando-lhe serviços” (Mt 27,55). Mas onde está a Rainha?
Na comunidade de Jerusalém, encontramos a mãe: “Todos eles tinham os mesmos sentimentos e eram assíduos na oração, junto com algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos de Jesus”. (At 1,14). A mãe e os discípulos ficaram cheios do Espírito Santo, pois: “estavam reunidos no mesmo lugar”. O livro de Atos continua: “Apareceram então umas como línguas de fogo, que se espalharam e foram pousar sobre cada um deles. Todos ficaram repletos do Espírito Santo” (At 2,1-4a). Porém, onde está a Rainha!
O que tudo isso nos ensina: os evangelistas e os Atos dos Apóstolos nos apresentam a mãe de Jesus. Ela está junto, anima a comunidade, fala sobre Jesus… ela é a Mãe do Bom Conselho!
E qual é o conselho de Maria? João quem responde: ela aconselha a fazer o que ele ensina, ou seja “A mãe de Jesus disse aos que estavam servindo: ‘Façam o que ele mandar’.” (Jo 2,5).
E o que Jesus manda? A resposta nos vem de Mateus, afirmando as palavras do mestre: fazer discípulos, batizar “ensinando-os a observar tudo o que ordenei a vocês” (Mt 28,20).
E o que Jesus ordenou e ensinou?
Vamos perguntar a Marcos que nos informa: “Jesus voltou para a Galileia, pregando a Boa Notícia de Deus: ‘O tempo já se cumpriu e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e acreditem na Boa Notícia’.” (Mc 1,14-15). Portanto, Jesus anuncia o Reino… que não é deste mundo. Começa aqui com base na verdade. “O meu reino não é deste mundo”. E explica: “Eu nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade. Aquele que está com a verdade ouve a minha voz’.” (Jo 19,36-37).
Aqui está o ponto de partida para reconhecermos Maria, a Mãe, como Rainha. É uma exigência lógica: se o filho é o rei da Verdade, Amor e Paz, a mãe é a Rainha da Paz.
O autor do Apocalipse apresenta uma mulher vestida de sol com uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça: “Apareceu no céu um grande sinal: uma Mulher vestida com o sol, tendo a lua debaixo dos pés, e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas.” (Ap 12,1).
O Apocalipse é um livro que deve ser lido com os olhos da esperança, portanto olhemos com atenção esperançosa os símbolos, desta visão.
A mulher pode ser identificada com a Igreja e com Maria. E Maria está vestida de sol, porque não há outro que pode iluminar a não ser Jesus. Ele é o nosso sol, a luz que nos guia. Só ele é o sentido da existência, da Igreja, da fé e de sua própria mãe. Sem Jesus, Maria seria apenas uma entre tantas mulheres virtuosas do seu tempo. A grandeza de Maria não está nela, está no fato de ser mãe do Jesus nosso sol, luz do mundo.
Por que ela está pisando sobre a lua? Porque a lua representa o mundo. Não tem luz própria. Depende da Luz de Deus, de Jesus, luz do mundo (Jo 1,1-14). Ele é o sol que veste a mulher.
O que ela tem na cabeça? Uma coroa. A Mulher é a rainha. O que tem na coroa da Rainha? Doze estrelas. O que são as estrelas? Os apóstolos. Por ser mãe de Jesus, o rei e o sol, Maria é rainha das estrelas, os apóstolos, a Igreja.
Então a quê nos remete a cena do Apocalipse 12,1? A Jesus que é o Rei, o sol que envolve a tudo. E à Mãe, que é a Rainha com uma coroa de doze estrelas, os doze apóstolos.
Portanto, aqui está a base teológica para a devoção à Maria, Nossa Senhora Rainha.
E, como a coroa sugere, Rainha dos Apóstolos. A mesma Mãe que esteve no cenáculo e recebeu o Espírito, agora aparece envolta na luz do Filho. O mesmo Espírito que a envolveu no momento da concepção: “O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo a cobrirá com sua sombra” (Lc 1,35), agora a apresenta envolvida na Luz do seu Filho, guiando os apóstolos, pois eles são as estrelas em sua coroa de glória.
Plena de Luz. Plena do Espírito. Plena de Jesus, Maria é plena atenção aos apóstolos. Permanece com eles, superando o medo das perseguições. A fé popular e o ensinamento dos Santos Padres expressam a mesma certeza. Certeza que alimenta a devoção mariana ao longo dos vinte e um séculos de cristianismo: Maria, a mãe de Jesus, goza da dignidade de Rainha!
Essa fé nos leva a saudarmos a mãe, ao recitarmos: “Salve Rainha, Mãe de Misericórdia…”. Além disso, na ladainha, a invocamos doze vezes como Rainha. A Mãe Maria é Rainha: dos Anjos, dos Patriarcas, dos Profetas, dos Apóstolos, dos Mártires, dos Confessores da fé, das Virgens, de todos os Santos, Concebida sem pecado original, Assunta ao céu, do santo Rosário e, principalmente, Rainha da paz. Além disso, quem recita o rosário oferece uma coroa de 150 rosas (150 ave-marias) e, no quinto mistério glorioso, a contempla sendo coroada no céu.
Ao longo dos séculos, o povo, na sabedoria de sua fé, definiu os diferentes títulos com os quais quis venerar à Mãe de Jesus. Esse apelo se tornou tão expressivo que em 1954 o papa Pio XII fixou o dia 31 de maio como a data litúrgica para a celebração da Mãe Rainha.
E isso ocorreu como coroação do ano mariano que então se celebrava, comemorando os cem anos do dogma da Imaculada Conceição de Nossa Senhora, proclamado por Pio IX no dia 8 de dezembro de 1854, por meio da bula Ineffabilis Deus. Assim, Pio XII coroava o ano mariano e o mês de maio definindo uma data festiva para celebrar a devoção popular que reconhece em Maria a Rainha.
Com isso, algumas das festas marianas ficaram interligadas. Começando com a Imaculada Conceição (definida por Pio IX, 8/12/1854), é a solenidade em que a Igreja afirma que Maria foi isenta do pecado.
Após sua ressurreição Jesus chamou a Mãe para a morada eterna. É a solenidade da Assunção de Nossa Senhora, celebrada dia 15 de agosto, conforme fixado por Pio XII na constituição apostólica Munificentissimus Deus (1/11/1950).
Quase como extensão da Assunção, celebramos a memória da realeza mariana: Nossa Senhora Rainha. Esse reconhecimento foi feito pelo mesmo Pio XII por meio da encíclica Ad Caeli Reginan. Nessa encíclica, além de declarar a realeza mariana, convida à veneração de Maria Rainha para que a Senhora conceda a Paz ao mundo ainda assustado com as duas grandes guerras. Daí o título de Nossa Senhora Rainha da Paz.
Com a reforma litúrgica do Vaticano II, os bispos conciliares acharam melhor transferir a data litúrgica para o dia 22 de agosto. Exatamente oito dias após a celebração da solene Assunção de Nossa Senhora.
Dessa forma temos algumas das principais celebrações marianas: Imaculada Conceição, 8 de dezembro. Assunção de Nossa Senhora, 15 de agosto. E o reconhecimento da realeza mariana, no dia 22 de agosto, como uma espécie conclusão da Assunção.
Resta uma indagação: Como estender essa perspectiva histórica e teológica para a ação pastoral?
Podemos fazer isso a partir de dois pontos.
Primeiro relendo Ex 3,7-10 em perspectiva mariana. Deus viu, ouviu e desceu para libertar seu povo e enviou Moisés; no tempo oportuno veio até Maria e a enviou primeiro como mãe, depois como discípula e por fim como rainha. Uma rainha que não está aí para reinar de forma absoluta, como fazem os donos do nosso mundo, mas como modelo de mulher servidora. Ela abre mão de sua vida para dar vida ao Filho que dá vida ao mundo.
Depois olhando a atitude de Ester, intercedendo em favor de seu povo: “Se o senhor quiser fazer-me um favor, se lhe parecer bem, o meu pedido é que me conceda a vida, e o meu desejo é a vida do meu povo” (Es 7,3-4). A rainha Ester mostra a quê se dedica a rainha: defender a vida e a liberdade.
Maria, “mãe de Misericórdia”, é invocada como “advogada”, quando recitamos a “Salve Rainha”. Ela é nossa advogada não só para livrar das dores do dia a dia, mas também para iluminar os caminhos da transformação social uma vez que ela, livre do pecado, quer pela graça de seu Filho, libertar a humanidade dos pecados sociais: da violência, da segregação, da exclusão, da fome, da ambição, da ganância… para que não haja opressores nem oprimidos mas um reino de amor, respeito e solidariedade.
Cumprindo o que Maria, a Mãe conselheira e rainha dos Apóstolos, recomendou “fazei tudo o que ele vos disser” seremos livres dos pecados pessoais e sociais. É o apelo de Nossa Senhora a Rainha, a quem pedimos ajuda, “para que sejamos dignos das promessas de Cristo”.
Neri de Paula Carneiro