23.3.26

MEDO DO MEDO

Meu medo é não ter medo e me tornar

        temerário: não temer magoar quem ama

        para admirar quem açoita, esse é o drama.

        Ensinou o velho Raul:

        “Conserve seu medo”, pois com ele aceso

        se pode perder o “medo da chuva” que

        volta pra terra trazendo “coisas do ar”

Meu medo é não ter medo do medo

        e sem medo arriscar. Se não arriscar,

        como perder o medo?

        Não perde quem arisca, mas que teme

        ariscar e perder e por medo de perder

        deixa de ganhar. Vence não

        quem teme, mas vive “sem medo de nada”

Meu medo não é ter medo, mas não ter medo

        e sem medo, confiar como quem

        confia na bengala.

        A bengala é fiel, infiel é quem

        provoca a cegueira.

        Cego é quem nada sabe e, por medo

        do saber, nega o saber, ensina mentiras.

Meu medo é não ter medo de não ter medo.

        Temo não o incerto, mas a certeza

        de quem não sondou e crê. A fé não

        é admirar o incompreensível, mas

        saber das possibilidades.

        Não foram as certezas que impeliram

        a humanidade, mas os medos.

 

Neri de Paula Carneiro.

Mestre em educação, filósofo, teólogo, historiador

Outros escritos do autor:

Literatura: https://www.recantodasletras.com.br/autores/neripcarneiro.

E.books: https://www.calameo.com/subscriptions/7509406

Blog: https://pensoerepasso.blogspot.com

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