23.9.26

RONDÔNIA, UMA VÍRGULA

Guarupi, sentado em seu galho predileto, conversa com a Mula Sem Cabeça.

F alavam sobre o mundão das amazônias, que vai além da região amazônica e de todas a amazônias imaginadas.

E enquanto conversavam Guarupi mostrou à Mula Sem Cabeça que neste mundo das amazônias, nestes dias que é o tempo que estamos vivendo, tem um cantinho que parece algo como se fosse uma vírgula. Ela foi ver e viu que é.

- Viu só?

- Não é que é!

Nesse momento chegou o Condor Andino, voando majestoso.

Chegou voando, pegou a conversa meio que pela metade e ficou assim meio que sem entender o que eles estavam falando.

Com a paciência de um deus das amazônias, Guarupi explicou:

- É simples, amigo Condor. Assente-se aqui e te explico tudinho. Pega o mapa do Brasil e veja Rondônia, dentro dele.

- Continuo não entendendo, Guarupi!

- Então vamos começar bem no começo.

E o deus das amazônias, que havia se levantado para acolher o Condor, sentou-se novamente sobre seu galho preferido, no alto da castanheira, ao lado do Condor ali pousado.

- Tudo começou lá bem no começo, quando começou a chegar aquela gente estranha com pelo na cara e com duas camadas de pele. Uma que eles tiravam para lavar ou para fazer algumas coisas e outra pele lisa, sem pelo, esbranquiçada, parecendo o couro do boto branco.

Guarupi continua:

- Você deve se lembrar bem disso!

- Sim. Uns diziam para os outros que este nosso mundo que não pertence a ninguém era deles. E, de fato, eles queriam dividir o que não lhes pertencia, o nosso mundo, que sempre foi inteiro. Para se entenderem e entenderem a divisão que estavam fazendo, fizeram o mapa.

A Mula Sem Cabeça, completou:

- Exatamente, essa coisa estranha, o mapa. Não é tudo um só mundo? Por que é que eles querem desenhar tudo num pedaço de papel riscando um pedaço pra cá, outro pra lá, como se o mundo fosse feito de pedaços.

- É disso que estou falando. E eu estava mostrando para a Mula que um dos pedaços parece uma vírgula.

E o deus das amazônias mostrou o mapa atualizado.

Um mapa mostrando o Brasil e dentro dele mostrou Rondônia.

E o pequeno deus explicou tudo ao Condor que conhece todas as curvas de cada rio e sabe que todos chegam ao mar das amazônias, o rio-mar que bebe água de todos os rios desde as altas cordilheiras até os pequenos igarapés numa rede capilar de um infinito de águas, vicejando o mundo verde-amazônico. Um tanto de rios e igarapés que até parece uma peruca de águas correndo para refrescar o cocuruto do Brasil do norte.

E o pequeno deus continuou.

- Você que vive lá das cordilheiras, sabe como é o nosso mundo. Mas os seres de duas peles de cara peluda e couro parecendo o boto branco, chegaram dizendo que os reis de onde eles vieram fizeram um acordo, lá num cantinho de terra, chamado de Tordesilhas. No tempo deles era 1494. Eles combinaram quem podia dizer quem era o dono de qual pedaço do grande mar salgado. E daquilo que existisse além do mar.

- Certo, Guarupi, mas você está lembrado! Eles não ficaram só nisso. Estavam brigando por causa da divisão e achando que o acordo que tinham feito não estava certo. Diziam que o primeiro acordo tinha que ser desfeito para ser refeito.

- Exatamente, condor.

- Por isso, eles se reuniram noutro canto do mundo deles, chamado Madri. Fizeram isso, também no tempo deles que era 1750. Para que se reuniram? Para fazer outro acordo, um novo mapa. Sempre para dizer quem era dono de qual pedaço do nosso mundo. É que uns diziam para os outros que os outros estavam invadindo o que era deles e que isso estava errado de acordo com o acordo de antes.

Nesse ponto a Mula Sem Cabeça lembrou:

- Não vamos nos esquecer que já se tinham passado mais de 250 anos, do primeiro acordo. Eles ainda mal conheciam nosso mundo. Já exploravam tudo por aqui, mas ainda estava ligados e dependiam do seu mundo que estava do outro lado do grande mar salgado.

E o Condor, completou o comentário do Mula:

- O problema é que eles trouxeram para nosso mundo as brigas que alimentavam entre eles. E queriam dominar nosso mundo, como dominavam o mundo deles. E, para isso, exploravam nosso mundo, explorando os povos de pele escura do mundo dos leões e elefantes.

Guarupi retomou a palavra, dizendo que foi por esse motivo que começaram a desenhar a vírgula, bem no meio da barriga da grande amazônia. E falou:

- Eles queriam conhecer nosso mundo e saber o que existia por aqui. Começaram a desenhar a vírgula. Quem fez isso? Os barbudos que dominaram as terras dos guaranis.

- Deram trabalho para a Mãe d’água e para o Curupira nos rios e florestas por onde passaram. Primeiro lá pelas terras do sul, perto do Grande Mar Salgado. Depois vieram para nosso mundo – Completou o Condor

A Mula sem Cabeça comentou:

- De fato, a Mãe D’água e o Curupira tiveram muito trabalho, protegendo a floresta e os rios. Galopando pelas brenhas, de vez em quando sentia cheiro de coisa morta. Eram alguns deles que morriam e ficavam virando adubo para as raízes das matas. Eles subiram pelos rios e florestas e morriam porque não foram feitos para sobreviver em nosso mundo. Eles eram fracos e estavam deslocados na floresta com aquelas roupas esquisitas.

O condor completou:

- O curupira me falou daquele grupo. Mais de mil, vindos das terras do sul. Chegaram até perto da grande Cordilheira. Sofreram os horrores de quem não conhece a vida das florestas. Por isso, foram morrendo pelas picadas e rios e ficando por aí. Só algumas dezenas chegaram ao rio das madeiras boiando que eles passaram a chamar de Rio Madeira.

O condor fez uma parada em sua narrativa e a Mula sem Cabeça continuou:

- Num outro dia estava conversando com a Mãe d’Água e ela estava recordando isso. No tempo deles, saíram em 1648 e retornaram em 1651. Viajaram por 3 anos e só uns poucos sobraram dessa aventura. Tudo porque queriam encontrar pedrinhas brilhantes. Acharam algumas, mas ficou muito caro para eles, pois morreram quase todos.

Guarupi continuou seu raciocínio, sobre o mapa.

- Com isso acrescentaram alguns traços no mapa do nosso mundo. Viajando pelos rios Guaporé e Mamoré até o rio das madeiras boiando e chegaram ao mar amazônico e desceram mais e entraram no grande mar salgado.

Ouvindo esse comentário, a Mula sem Cabeça, solta um longo suspiro de dor, lamentando as mortes dos que ficaram pedidos e esquecidos na história.

Nesse momento, por causa do calor escaldante, o condor balançou as asas para puxar uma nuvem que vagava por perto. A nuvem veio e despejou chuva sobre eles.

A Mula sem cabeça balançou as orelhas. Agradeceu ao Condor pela chuva refrescante. Guarupi continuou:

- Tudo isso ajudou a desenhar a virgula. Eles continuaram querendo saber quem mandava em nosso mundo, como se nós não existíssemos. Continuaram se desentendendo e brigando. Decidiram fazer outros acordos, para evitar uma guerra entre eles. Um dos acordos recebeu o nome de Santo Ildefonso, em 1777.

O Condor comentou:

- Você está vendo, Guarupi, alguns ainda dizem que estou falando com ironia, mas tudo isso só mostra os limites dos conhecimentos deles a respeito do nosso mundo. O acordo de Santo Ildefonso foi feito para corrigir o que estava em desacordo naquilo que tinham estabelecido no acordo de Madri.

Com um gesto de cabeça, o pequeno deus continuou, sua narrativa:

- Exatamente. Porém passaram-se mais alguns anos e as dúvidas deles permaneciam. Fizeram mais um acordo e com isso completaram a vírgula, usando os rios Guaporé e Mamoré para demarcar as fronteiras. Em 1867 completaram a vírgula, escrevendo mais acordos em Ayacucho.

Balançando as orelhas, a Mula sem Cabeça, completou:

- Não esqueça de Petrópolis. A vírgula só ficou definitivamente pronta em 1903, quando resolveram a pendência em relação ao Acre… mas aí já é outra conversa que a Mãe D’água gosta de contar. Ela acompanhou essa história bem de perto.

- Agora entendi, Guarupi. Como não percebi antes? Mas é que, voando pelas amazônias, vejo tudo como um só mundo verde interligado pelos rios. É o nosso mundo como sempre foi. Não o vejo como os estranhos cara peluda desenharam no mapa…

- Pois é Condor. Esse é um dos defeitos do povo de pelo na cara e couro branco. Mas não tem como negar, seguindo os riscos que eles fizeram no mapa, dá para ver a virgula.

O pequeno deus, parou. Respirou. E continuou:

- Vai haver muitos que não entendem que os mapas são uma forma de desenhar o domínio. E aqui serve para mostrar que Rondônia é uma virgula, coisa que os povos de pele de boto branco criaram para denominar e dominar e se apropriar do nosso mundo.

Novamente balançando as orelhas para espantar uma mosca, a Mula sem Cabeça interrompe a fala do pequeno deus:

- Mas Guarupi, eles só vão entender que o mapa de Rondônia parece uma virgula se eles virarem o mapa de cabeça para baixo.

- E não é isso que estou dizendo? Rondônia é uma virgula de cabeça para baixo, lá no mapa. Mas se o mapa for colocado ao contrário, ficar de cabeça pra baixo, Rondônia vira uma virgula correta. Por isso é que a gente estava dizendo que Rondônia é uma vírgula. Uma vírgula que eles foram desenhando no mapa enquanto foram se instalando em nosso mundo.




Neri de Paula Carneiro

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