Lembra daquela do Amado Batista:
“Ah! Como eu queria, voltar ao passado”?
E se eu voltasse, eu seria o eu do passado ou o eu atual? E se fosse o eu atual, não seria o eu do passado, mas eu no passado, portanto, descontextualizado.
E se eu voltasse, eu iria alterar o passado? Se alterasse, o eu atual não seria eu, mas outro, pois o que sou se deve ao que vivi ao longo dos anos. Isso me fez ser o que sou!
E se eu voltasse, que diria ao meu pai, diferentemente do que já disse? Que faria, além do que já fiz? E se dissesse ou fizesse, iria alterar nossa relação de pai para filho? Ou agora, eu no passado, levando-me como sou, manteríamos uma relação de pai para pai?
E se eu voltasse, poderia fazer hoje a mesma homenagem ao pai que deixei lá? Ele já se foi, mas se eu voltasse, qual o pai que encontraria, aquele com quem cresci ou este que vive em minha memória e me embala o coração?
E então, hoje, qual é o pai a quem faço homenagem? Faço homenagem ao pai que já não tenho, ou ao pai que vive em mim?
Ou, e isso é nefasto, faço homenagem ao meu pai porque é isso o que se faz ou porque é dia dos pais? Faço homenagem ao pai que tive ou àquele com quem convivo, na memória? Faço homenagem porque é meu pai ou porque é dia de homenagem?
Neri de Paula Carneiro
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